KISSÂNGUA

Quatro galfarros sentados à mesa tosca, coberta de linóleo. Ou seriam cinco? Não importa. Um copo para cada um e, no meio, uma garrafa de litro. Por trás das gotículas condensadas no vidro, um líquido esbranquiçado adivinhava-se dentro dos copos e da garrafa quase vazia.
Lá fora, as bicicletas encostadas à parede esperavam para nos levar ao liceu, mesmo a tempo de retomar as aulas. O intervalo grande era mesmo assim, grande, e nele cabiam aventuras quase todos os dias.
Umas vezes íamos ao mercado popular, situado perto da escola, como tudo o resto nas terras pequenas. Um cacho de bananas era muito barato. Comprávamos a variedade conhecida localmente por banana-macaco, de casca muito fina, pequena, doce e aromática quando madura. De novo na escola, ainda sobravam bananas para distribuir. Quando não havia bananas, servia cana-doce.
Outras vezes, o intervalo passava-se em corridas de bicicletas, a conversar ou simplesmente a “fazer cera”. Por vezes (ver A BATALHA) íamos assaltar o pomar que ficava perto da escola. Umas peças de fruta a menos não faziam mossa ao dono.
Deixei para o final a explicação das idas à lojinha secreta. Não eram frequentes, mas eram importantes. Pela transgressão, pelo secretismo, pela cumplicidade, por nos sentirmos adultos. A loja pertencia a uma senhora de idade. Pelo menos é essa a memória, mas poderia não o ser pois, quando somos adolescentes, é assim que nós vemos quase todos os adultos. Fazia kissângua artesanal, que vendia sem licença. Quando entrava alguém e se sentava, não abria a boca. Tirava do frigorífico uma das garrafas, e do armário de madeira os copos, pousando tudo na mesa. As “visitas” serviam-se, falavam pouco e iam embora, deixando umas moedas no balcão da entrada. Para bom entendedor, ela nada vendia. E tinha muitas visitas, sobretudo ao final da tarde, quando o pessoal saía do trabalho e por lá parava, antes de rumar a casa.
A bebida alcoólica, pois era disso mesmo de que se tratava, tinha baixa graduação, menor que a da cerveja, mas era mais barata. Ligeiramente adocicada e aguada, com um leve sabor a fermento, era um preparado caseiro que tinha sido adoptado pela cultura popular, juntando-se a outros mais tradicionais. Entre estes estava o marufo, também chamado de vinho-de-palma, e que é um fermentado de seiva de algumas palmeiras, disponíveis apenas nas regiões mais quentes e húmidas. O macau, por seu lado, sendo obtido a partir da fermentação de grãos cozinhados de massambala, uma espécie africana de sorgo, era comum nas zonas mais pobres e de agricultura de subsistência.
Já a pinga desta memória é feita com milho, produto levado para África no século 16 e com uma área de cultivo muito extensa em Angola. A abundância de matéria-prima ditou o seu sucesso. Isso, e também a facilidade de preparação. A receita manda humedecer os grãos até começarem a germinar. Cozem-se em água, esmagam-se, junta-se açúcar, deixa-se fermentar alguns dia e está pronta. Outros fazem-na de modo ainda mais rápido, saltando a germinação e cozendo directamente a farinha.
Está na hora de encerrar esta memória, e as bicicletas que nos esperavam levaram-nos de volta ao liceu. Direitinhos.

Deixe um comentário