No silêncio morno da tarde, o canto longo e melodioso preenchia o espaço. Repetitivo mas não monótono, era mesmo reconfortante e acompanhou-me em muitas tardes de estudo durante uma boa parte da infância. Saía de uma “caixa” e, se fosse hoje, diríamos ser um som de ambiente, fabricado, e não anda longe da verdade. O facto é que não se tratava de uma ave real mas de uma gravação, e a tal caixa era o aparelho receptor de rádio, o mais ubíquo electrodoméstico na época. Naquele tempo, a década de 60 do século passado, a emissão de rádio local em onda média só se iniciava ao final da tarde. Contudo, algumas horas antes da emissão regular de notícias, música e comentários, era colocada no ar o equivalente ao que veria mais tarde na televisão fora de horas, a chamada mira técnica. Provavelmente para efeito de controle, o som emitido através das ondas hertzianas era o que descrevi no início do texto. Nunca cheguei a saber de que espécie de ave se tratava, mas que foi uma excelente escolha lá isso é verdade. Muitas vezes aquele som vem à superfície das memórias quando escuto um melro no topo uma árvore, ao final da tarde, assobiando ao mundo a partir do centro do seu território.
O CANTO DO PÁSSARO
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