CÁVADO: 100 LITROS DE PROBLEMA

Todos fugiram do laboratório. E a passo rápido, pois o caso não era para menos. Levantada a tampa, um fedor indescritível espalhou-se pelo ar… Nem o grande pé direito, nem a pronta abertura das altas janelas da antiga sala impediram que aquele cheiro orgânico, peganhento, se colasse a tudo e a todos. A tampa era especial. Pertencia a um recipiente de plástico bojudo, em forma de barril, e vedava perfeitamente a abertura.  Lá dentro, 100 litros de problema.

Será melhor explicar desde o início ou, como é costume, este é o momento em que aparece a legenda: “Três meses antes…”

Na  década de 1980 veio muito dinheiro para o estudo multidisciplinar dos principais rios. O Projecto NATO PO-RIVERS, suportado financeiramente  pela “North Atlantic Treaty Organization” (Organização do Tratado do Atlântico Norte) ao abrigo do programa “Science for Stability”, constituiu um importante passo para o conhecimento das várias bacias hidrográficas, e a identificação dos principais problemas permitiu lançar as bases da sua gestão integrada. O antigo Instituto de Zoologia Dr. Augusto Nobre, da Universidade do Porto, dedicado à investigação e à prestação de serviços, não deixou passar a oportunidade e assumiu uma boa parte dos trabalhos, com a colaboração e empenho de docentes, técnicos e funcionários. O encaixe financeiro contribuiu para a aquisição de mais equipamentos, e para a  modernização dos laboratórios de investigação e das salas de aulas. Os resultados obtidos foram também usados em congressos e em publicações científicas diversas.

De modo distinto, participei nos estudos biológicos dos rios  Ave, Lima e Cávado.  No Lima ajudei um pouco, no Cávado participei a fundo, e no Ave fui mesmo o responsável pela caracterização das populações de peixes, o primeiro trabalho de responsabilidade que me foi confiado na faculdade, era ainda novo na casa. Cumpri a tarefa com a ajuda de três colegas mais novos e dos funcionários, todos com entusiasmo. Principalmente estes últimos, talvez pelas horas extraordinárias que lhes seriam pagas, e que eu ampliei para que recebessem mais… Talvez por isso, e por eu alombar com eles nos trabalhos pesados, e também por tratá-los como pessoas e não como escravos, nunca me negaram o esforço e, ao longo dos anos, sempre me trataram com especial atenção. 

Foram campanhas complexas, trabalhosas e fisicamente extenuantes. Com a duração de uma semana cada uma, implicavam levantar antes do sol, matabichar, e viajar os quilómetros  necessários para chegar ao local onde se tinham calado as redes no dia anterior. Seguia-se a colocação do barco na água e a alagem sucessiva de cada uma das cinco redes, de malhagem entre 18 e 80 mm. Para cada rede, era necessário identificar os peixes capturados, medi-los e pesá-los, libertar os vivos e guardar os mortos. Depois da limpeza das redes, arrumar tudo e avançar para um dos pontos selecionados previamente num dos afluentes. Aí chegados, era a vez de descarregar o material de pesca eléctrica: gerador, eléctrodos, rolos de cabos, camaroeiros, baldes, aerificadores, luvas e botas de borracha, e muito mais. Montado o sistema, era a vez de avançar pelo ribeiro, recolhendo os peixes paralisados pela electricidade. O processo era trabalhoso, fatigante, sobretudo em leitos irregulares, ou quando cortinas de silvas dificultavam a progressão. Por seu lado, processar as amostras era moroso, chegando mesmo a ser entediante. Para cada peixe, depois da sua rápida identificação, era necessário medir, pesar, retirar e guardar algumas escamas, tudo em contra-relógio, e voltar a colocá-lo na água. Pelo meio das tarefas, tínhamos de encaixar um intervalo para comer o farnel… Ao fim da tarde estávamos já a calar as redes noutro ponto do rio. O jantar, na tasca mais a jeito, antecedia a noite bem dormida, por vezes em instalações improvisadas. A mesma receita repetia-se até ao último dia.

No regresso ao Porto, vários bidões cheios de peixe em líquido conservante ficavam a aguardar análise. E foi numa das campanhas feitas no Cávado que alguém se esqueceu de colocar o formol num desses recipientes. Durante cerca de três meses, o material recolhido permaneceu em água do rio, sem oxigénio, sem conservante,  caminhando para um estado de maior entropia. Dito com menos elegância, apodrecendo.

Esta memória poderia ter um título como “AROMAS DO CÁVADO”, mas não teria tanta graça. Menos graça teve o trabalho que se seguiu, e para o qual me voluntariei. Um a um, tirei daquela sopa densa os cadáveres, identifiquei a que espécies pertenciam, e registei o comprimento de todos. Mais não dava para fazer.

  

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