Com um sorriso trocista, manhoso até, o empregado de mesa encolheu os ombros enquanto saboreava o espanto nas nossas caras. Tinha acabado de dizer, dentes arreganhados: “Tutti italiani mafiosi…” Isto, depois de apontar com o indicador umas letrinhas impressas nas toalhas de papel onde pousavam os pratos vazios da refeição terminada. Mais coisa menos coisa, dizia em italiano e em inglês macarrónico, não estivéssemos nós em Veneza: ao custo da comida acresce a taxa de uso dos copos, pratos e talheres… Todos os italianos são mafiosos, repetimos com vontade, acenando afirmativamente com a cabeça.
Surpreendidos, tenrinhos na vida, pouco viajados, nenhum de nós tinha enfrentado situações semelhantes. Pagámos, a resmungar e a pensar em não cair noutra igual.
Se bem recordo, fora do nosso país, poucas vezes tinha entrado em restaurantes, mesmo em deslocações de serviço. O financiamento era sempre curto, contavam-se os tostões. A conversão de moeda era penalizadora e os preços eram muito acima dos nossos. Contudo, até nisso esta viagem foi diferente das anteriores. No outono de 1990 fui a Trieste, no norte de Itália, frequentar uma formação especializada. Fiz o “Third Autumn Course on Mathematical Ecology”, com viagem paga. Fui eu e mais dois colegas da Faculdade, que também se tinham candidatado. Nós e mais de uma centena de seleccionados, vindos de diversos países. O curso decorreu no “International Centre for Theoretical Physics”, com boas instalações, refeitórios, e uma biblioteca enorme e variada. O que mais surpreendeu, coisa nunca vista, foram máquinas fotocopiadoras sem registo e sem custos para os participantes. A UNESCO, promotora do evento em conjunto com a Agência Internacional de Energia Atómica, sabia bem que a maioria dos participantes não tinha nem financiamento adequado nem boas bibliotecas. Muitas cópias fizémos…
No final da primeira semana, intensa, resolvemos aproveitar a oportunidade, e foi no primeiro domingo que tomámos o comboio para a cidade dos canais malcheirosos. Não era a primeira visita, tinha por lá passado sete anos antes, de bolsa vazia, numa viagem de INTERRAIL pelo continente (ler Europa). Quatro horas depois estávamos na praça de São Marcos, uma das zonas turísticas mais famosas do planeta, e com razões para isso, mas não cabem nesta curta memória. Nesse dia, merecíamos almoço de turistas e, por essa razão, procurámos uma esplanada simpática nas vielas afastadas do centro apinhado de gente. Tivemos o almoço, e também o “tratamento especial” para turistas relatado no início desta história…
Voltemos a Trieste. Para além do que aprendemos no curso de duas semanas, tivemos ocasião de experimentar a gastronomia regional. Fomos a várias casas modestas, mas com comidas deliciosas e atendimento familiar. Anunciando sermos portugueses, a simpatia redobrou.
No final da viagem, podíamos dizer que o título desta memória não é verdade, nem todos os italianos são mafiosos.