Quantos dos grãos que sentia debaixo dos pés seriam dentes como o meu? Teria passado mais de uma hora de brincadeira de crianças dentro da improvisada piscina natural, cheia de água bem quente, muito quente mesmo? Certamente! E tinha feito bochechos frequentes, amolecendo a gengiva? Claro que sim. Em resultado, o incisivo de leite, já meio a abanar, soltou-se e desapareceu no líquido meio turvo.
Sítio habitual de pic-nic para quem vivia na região do Huambo, o local era conhecido como águas quentes do Alto Hama. Tinha essa nascente de água, com origem muitos metros abaixo do solo, e aquecida nas camadas mais fundas da crosta terrestre. Um belo dia, alguém teve uma excelente ideia. Orientada a água, umas rochas e umas pazadas de cimento no sítio certo, e eis que surgiu uma piscina rasa, de água bem quente. Fazia as delícias da criançada e também de alguns adultos. Dizem que as águas são sulfurosas, mas não me lembro do cheiro. Deve ser leve, ninguém se incomodava. Fomos lá várias vezes, mas as imagens não ficaram registadas. Recordo com nitidez, não as piscinas, não o recinto, nem o local de pic-nic. O que tenho bem guardado é outro monumento natural que fica aí perto. Bem visível da estrada, o enorme monólito granítico via-se de longe no planalto africano, um gordo polegar apontado ao céu. Chamavam-lhe Monte Luviri. Pensando agora melhor, afinal o rochedo parecia um dente, como o meu, e faz-me recordar com um sorriso a queda do apêndice maxilar.
Esse dente, afundado nas termas rudimentares, não foi o único que me ficou gravado na memória. Ainda dos de leite, fui encorajado pelos pais a tratar deles. Um deles, talvez o primeiro, saiu pela minha mão, com alguma hesitação, depois de uma linha de costura pacientemente amarrada pela mãe lhe ter adiantado o destino. A outro, já com mais coragem, apliquei um dos alicates do pai, seguindo a sua sugestão. Não sei se proposta teria sido a sério se a brincar, se acreditava ou não na minha força de vontade. O facto é que tirei rapidamente o molar, sem pensar muito.
Feitos de criança, talvez comparáveis a outro episódio odontológico que me aconteceu muito mais tarde, era já quarentão. Adormeci na cadeira do dentista, a meio do tratamento. Aparentemente, sou caso único, a julgar pelo testemunho do surpreendido médico, que chamou as funcionárias para ver o espectáculo inédito. E também de acordo com todos os amigos a quem revelei a involuntária proeza, cépticos e a imaginarem o zumbido da broca. Um acaso? De facto, um acaso não foi, pois houve lugar a repetição. Verdade, verdade! E mais não clamo, pois se é necessário fazê-lo, começa a parecer aldrabice. Aconteceu-me não uma vez, não duas, mas três vezes!