QUAIS SÃO AS REGRAS DO JOGO?

Ali estava eu, no meio de tantos outros, todos sentados a assistir pacificamente à movimentação dos jogadores, numa coreografia que não compreendia. Os vizinhos meteram conversa, queriam saber se eu estava a gostar. Tinham-me topado. Obviamente, pelo menos para eles, eu não fazia parte do estereótipo que abundava em redor. Não me contive, confessei a minha ignorância e perguntei de que estavam os jogadores à espera, pois me parecia estarem em pausa há demasiado tempo. A resposta foi surpreendente. Disseram desconhecer a maior parte das regras, não souberam explicar o que se estava a passar no campo. E acrescentaram, talvez para se desculparem: gostamos de vir aos jogos só para nos divertirmos e apoiar a equipa da nossa cidade.       

Os  Orioles eram a equipa da terra. Sim, assisti a um jogo importante da Major League Baseball, a liga americana daquele estranho desporto de bastão e bola. E foi no imponente estádio de Baltimore, constituindo uma experiência única. Pelo tipo de espectáculo, longo, lento, repetitivo, com muitas paragens, mas de estádio a abarrotar. E única também porque não a repeti. Em congresso na universidade por uns dias, tinha visto o anúncio ao jogo e quis satisfazer a curiosidade sobre este desporto, tantas vezes mostrado no cinema. No sábado ou no domingo, dirigi-me ao estádio mas, como era expectável, claro que não havia bilhetes. Nem para  mim nem para muitos outros que estavam lá com o mesmo objectivo. Na bilheteira. disseram-me que era habitual algumas pessoas saírem a meio, eu que estivesse atento e pedisse o bilhete. Tanga, pensei desconsolado, e iniciei o regresso. Não me tinha afastado cinquenta metros quando vi um casal sair por um dos portões do grande edifício, correndo para o parque de estacionamento. Interpelei-os, perguntando se me venderiam um bilhete. “Fique com os nossos, temos de ir já embora.” E foi assim que entrei, depois de deixar o ingresso sobrante com o porteiro.

Lá dentro era uma festa.  Circulavam atarefadas vendedoras de bonés com o pássaro amarelo símbolo do clube, e de brinquedos e bandeiras do mesmo mascote, mas vendiam-se principalmente guloseimas, comidas e bebidas. Havia mesmo as que anotavam encomendas que traziam meia hora depois, hambúrgueres, fatias de pizza e cachorros-quentes. Enquanto uns assistiam ao jogo, muitos outros conversavam nos corredores e nas bancadas, costas viradas ao relvado. Muito diferente da atitude vociferante a que estava acostumado na maioria dos eventos desportivos caseiros, profissionais ou simples torneios infantis, com espumantes encarregados de educação a inquinar o que era suposto ser um convívio. Há quem lhe chame catarse, dizendo também que faz bem. Tenho as minhas dúvidas. E sei também que outros desportos americanos são violentos e que enlouquecem a assistência.

Mas voltemos aos espectadores em Baltimore. Tão interessados estavam nas conversas que só olhavam lá para baixo quando os aplausos sublinhavam alguma jogada digna de reconhecimento, alguma tacada mais forte. Nessa altura aplaudiam também, mas rapidamente voltavam às conversas. Sim, pelo que aparentava, muitos só tinham ido apoiar a equipa, não para ver o jogo.        

A observação de costumes distintos dos nossos, de uma forma atenta e tão isenta quando possível, ajuda-nos a interpretar melhor aquilo que nos cerca de perto, e este foi apenas um exemplo entre muitos outros.

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