Fumegante, parado na beira da estrada, o velho jipe não andava nem mais um metro. Levantado o capô, nuvens brancas saíam do radiador fervente em forte contraste com os nossos rostos e vestuário. Estávamos avermelhados, e muito, do pó levantado do piso pelas poucas viaturas que tinham passado por nós, naquele sábado em que um adulto tinha sido indigitado para levar os mais novos a passear pelos arredores da vila no engraçado veículo sem a sua capota de lona e com o pára-brisas rebatido. Antevia-se uma longa espera antes de retomar viagem. Até o motor arrefecer e, principalmente, até obter água de alguma viatura que entretanto passasse. Era necessária para reencher o depósito do precioso líquido, agora mais importante que o combustível.
Olhando em volta, quilómetros de monocultura de milho a perder de vista, de um e de outro lado da estrada poeirenta. Não sei de quem foi a ideia mas alguém reparou nas maçarocas que já estavam grandes, talvez boas para comer. Assamos? Da ideia ao acto não passaram muitos segundos. Descamisadas, meia-dúzia delas foram espalhadas em cima do fumegante motor para as cozinhar.
Por mais absurda que a ideia possa parecer, na altura soou bem, e não havia mais nada para fazer a não se esperar. Para satisfazer a curiosidade, digo-vos que não resultou, não queiram repetir a receita. Obviamente, como quase tudo parece óbvio depois de acontecer, o motor esfriou antes da assadura se completar. Depois da expectativa, a realidade decepcionante. Como se não bastasse estarem encruadas, as espigas de milho cheiravam a óleo ou lubrificante. Pouco se comeu, talvez só o autor da ideia, mas as gargalhadas foram muitas.