“Paulinho onde estás? Vem almoçar!” Entretanto, a Mãe chegou à nossa beira. “O minino já comeu.” Assim respondeu a senhora que partilhara comigo a sua refeição, sentados ambos no coradouro da roupa, um grande canteiro só com hortelã. E o que tinha comido? Pirão duro de farinha grosseira de milho amarelo e carapau assado. Mas não do fresco, era do seco ao sol. Pousado poucos minutos em cima das brasas do fogareiro e depois temperado com alaranjado e espesso óleo de dendém, também conhecido como óleo de palma. Ao princípio da cozedura o peixe espalmado cheirava um pouco mal, mas depois era delicioso. A Mãe deu um ralhete ligeiro e fomos embora, deixando a acabar o seu almoço a lavadeira que ajudava lá em casa. Lembro-me que repeti esse repasto algumas vezes.
Esta cena de infância, bastante recuada, serve apenas o propósito de abordar um conjunto mais vasto de pequenos fragmentos de memória relacionados com outros repastos, mas só aqueles inusitados, menos convencionais ou, pelo menos, mais afastados daquilo que são as nossas refeições no dia-a-dia…
Não me refiro a iguarias como enguias, tubarões, lampreia, javali, veado, sarapatel ou verde (guisado de “miúdos” de ovino ou caprino), pratos mais ou menos populares na nossa terra, para não falar dos amados ou odiados miolos, os caracóis de terra e do mar, ou as tripas. O que pretendo é mencionar outros alimentos menos comuns que fui experimentando ao longo do tempo, como as perninhas de rã, comidas em Chaves, os túbaros (testículos de porco ou carneiro), em Portalegre, bife de cavalo e pardais fritos, em Lisboa, bife de toninha (semelhante aos golfinhos), no Porto, cracas grelhadas, nos Açores, gónadas de ouriços-do-mar, não me lembro onde…
Noutras terras, não me faltaram oportunidades para testar outros sabores, outros ingredientes, outras texturas, outros conceitos e filosofias com que cada cultura liga a nutrição ao que considera serem recursos alimentares. E não as deixei passar sem experimentar. Conscientemente deixo de fora deste texto as questões éticas relacionadas com este tema, e peço-vos que tenham em consideração a linha do tempo e a geografia.
Ainda miúdo, em Angola, comi regularmente carne de impalas, de gazelas, de songue, de nunce (o mais apreciado pelos conhecedores) e de outros herbívoros que eram petiscos para quem estava ligado à caça, mas rejeitados por muitos outros devido ao sabor “a mato”. Anos mais tarde voltei a testar esses sabores no Quénia, Namíbia, Zimbábue e Botsuana, onde há criação em cativeiro de “gados” diferentes dos europeus, juntando à lista de cima a carne de orix, de zebra, e de outros como avestruz e crocodilo. Estes dois últimos tinha entretanto provado na Europa, quando foram momentânea novidade em alguns restaurantes. No Quénia provei também um guisado de interiores de cabra, vagamente semelhante ao sarapatel alentejano acima mencionado, mas com muito sebo em vez de azeite. Merece destaque a comida africana mais estranha que me apareceu, o que é conhecido no Botsuana por “phane” ou “mopane caterpilar”. Não é mais do que uma enorme borboleta, mas colhida nas árvores ainda na forma de larva e depois desidratada e armazenada para consumir quando oportuno. Não gostei, não pelo sabor mas pela textura, palhuda e com pelos. Se tivesse começado este texto com esta memória teria sido mais adequado ao tema, mas teria repelido os mais sensíveis…
Mas voltemos à Europa. Em Espanha, comi caudas cozidas do feio camarão louva-a-deus, e anémonas fritas, ficam crocantes, não peganhentas. Na Noruega, provei baleia estufada, não me informaram de que espécie, e que era o prato do dia numa pensão católica onde estive alojado. Comi também rena frita. Aí me revelaram serem estas duas receitas bastante comuns para eles. Seriam, pelo menos nos anos oitenta do século passado.
No outro lado do atlântico, nos EUA, comi bisonte, em hamburger como não podia deixar de ser. Seriam animais abatidos em acções de controle populacional no Antelope Island State Park. No Brasil, para além de vários e estranhos peixes do rio, como por exemplo o tambaqui e o pirarucu, lembro-me da sopa tacacá, com muitos ingredientes e ainda folhas de jambú acrescentadas no momento de servir, sendo conhecidas por causarem uma leve anestesia da boca.
Na Austrália provei canguru, e repeti crocodilo. No Japão não passei sem testar o tradicional fugu, o tal peixe-balão venenoso, e ainda um conjunto alargado de alimentos que não cheguei a identificar, uns fermentados, outros misturados com arroz. É certo que uns anos antes tinha já comido um manjar japonês quando me ofereceram para provar, durante um congresso em Itália, peixinhos envoltos em açúcar. Na China, já se imagina, multiplicaram-se os alimentos desconhecidos para mim mas lembro-me dos bicos de lula, de línguas de uma ave, etc. Claro que passei ao lado dos insectos… Já no Tibete a variedade era menor e comi iaque preparado de três ou quatro maneiras.
Regressemos a terras lusas pois há mais para contar. Estando por cá também comi o que me trouxeram a casa, desafios e provocações. Lembro-me de conservas e enchidos de rena, de alce, e até de urso…
Só mais uma para terminar. Há alguns anos, tentei também o hákarl, um alimento tradicional que trouxe da Islândia e que não é mais do que tubarão fermentado, mas mal consegui provar. Um forte “aroma” amoniacal quase me fez expelir o estômago.

Salada de “mopane caterpilar”. 
Paulo Santos