Só acordei quando senti o cassetete a morder o lombo. Na verdade não tinha estado a dormir mas, durante algum tempo, talvez uma vintena de segundos, não sabia o que se tinha passado comigo, em que estado alienado tinha vivido. A dor aguda despertou-me mas não se revelou grave, deixou apenas uma grande marca negra que tardou umas semanas a desaparecer e um lembrete incómodo para não apoiar as costas a nada que fosse rijo. Olhei em volta e vi centenas de pessoas a correr de um lado para o outro e os polícias, talvez uns três ou quatro, a bater em todas as direcções. Fugi directamente para casa, envergonhado e dorido. A explicação de tal violência é simples. Não, não foi numa acção de protesto político no tempo da ditadura nem foi num comício mais acalorado já com ela acabada. Se assim tivesse acontecido, teria ficado como uma medalha no meu currículo da vida. Pelo contrário, tratou-se de uma pouco honrosa invasão de campo. Num momento estava sentado na bancada de madeira e no seguinte acordava com o toque pouco suave do alongado e eficaz despertador. Reconstituindo a cena: tinha acontecido uma decisão do árbitro muito duvidosa e prejudicial para a equipa da terra. Foi logo seguida de invectivante e barulhento protesto geral, e do imediato movimento campo adentro por alguns mais afoitos que estavam na fila da frente. O avanço foi imediata e acéfalamente seguido por quase todos os espectadores do jogo de futebol entre clubes rivais de duas vilas vizinhas. O clássico confronto que não admite ambiguidades.
No dia seguinte, apareceu lá em casa o agente que me tinha batido. Lamentava o excesso, atendendo a que eu era um adolescente. “Era uma confusão…” justificou-se, mas sabia bem a quem tinha atingido. Claro está que os progenitores assumiram diferentes posições, outro clássico. “Deixa ver as costas” disse a mãe que não sabia de nada, logo seguido de “Não era preciso ser tão bruto” e o pai “Ele não devia ter-se metido nisso”. Não devia, de facto.
Depois dessa experiência desagradável sobre o modo como funcionam as massas, talvez tenha ficado com alguma aversão a grandes multidões e ajuntamentos. Curiosamente, poucos anos depois, o tema foi abordado nas aulas de psicologia nos últimos anos do liceu. Aí pude entender bem, dado o conhecimento adquirido em primeira mão, os fundamentos da Teoria do Contágio. Esta afirma que as multidões exercem uma influência hipnótica sobre seus membros, cada um deles protegido pelo anonimato, e que as pessoas abandonam a sua responsabilidade individual, cedendo às emoções contagiosas da massa. Desse modo, a multidão assume vida própria, gerando emoções descontroladas e comportamentos que tendem a acabar na irracionalidade. Como se viu comigo nessa ocasião e como se vê tantas vezes em todos os países, povos e culturas.