TROAR, RIBOMBAR, RETUMBAR?

Troar, ribombar, retumbar? Não sei que palavra usar para descrever o som poderoso que nos faz vibrar o peito, qual caixa de ressonância de um instrumento emudecido, sem palavras.

Sem falar, pelas emoções no máximo. Perfeitamente compreensível, já que estava na beira de um fenómeno da natureza impressionante. Pelo som, sim, mas também pelas dimensões, por nos envolver num num arco-íris molhado, por nos fazer lembrar quão humildes, quão pequenos deveríamos ser ao usufruir do nosso planeta. Emoções no máximo também pelo simples facto de estar ali sem contar. Tinha contemplado de longe o grandioso cenário, durante largos minutos. Sentado na minha cadeira de rodas, fiquei em sossego, ninguém em redor, sentindo, fruindo. E recebendo no rosto o calor do sol coado e sucessivas ondas de pesado nevoeiro levadas pela brisa intermitente. Chegaram os restantes elementos do grupo, e vinham felizes, eufóricos, e eu feliz por eles. Foi então que me disseram que eu também ia à beira do enorme precipício das Cataratas Vitória. E fui! Melhor dizendo, fui levado. Três pares de braços fortes ampararam  a minha caminhada insegura pela rocha irregular até ao preciso ponto onde David Livingstone se sentava em contemplação. Graças ao empenho dos dois guias e o cuidado do amigo Vº pude imaginar o que o famoso explorador terá sentido, e senti-me grato a tudo e a todos por tornarem possível tão memorável experiência. As Cataratas Vitória!

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Três pares de braços fortes ampararam  a minha caminhada insegura…

Outras andanças proporcionaram-me a oportunidade para  visitar as outras duas mais relevantes quedas de água do nosso planeta com as quais estas têm paralelo. Se as Cataratas Vitória são consideradas por muitos como a maior queda de água do mundo, uma linha recta de quase dois quilómetros, as de Niagara e as do Iguaçu apresentam maior fluxo de água. Em contrapartida, são ambas mais baixas, não atingindo os 110 metros da primeira. Mas estas comparações são secundárias perante a singularidade de cada uma delas, a sua beleza hipnotizante, a força intensa que emanam, a escala esmagadora que nos encolhe, e ainda  o intenso prazer que sentimos ao vê-las.

Às Cataratas de Niagara, as primeiras deste fabuloso trio que conheci, corria ainda o século passado, fui levado de improviso por familiares quando os visitei em Toronto. Vistas do lado canadiano pareceram grandiosas, ruidosas, dignas de ver. Correspondiam às imagens que conhecia do cinema, tantos filmes as tinham usado como cenário dramático. Contudo, era um dia de chuva miudinha, a tudo roubando a cor. É claro que gostei muito, apesar da aparência cinzenta e das casas e hotéis que contaminavam a paisagem envolvente. Ficou-me o olhar invejoso no barquito que levava os turistas a observar de perto aquela formidável massa de água em movimento, pensando que haveria de chegar o meu dia. 

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Cataratas do Iguaçu.  CC0cc1Paulo Santos

As Cataratas do Iguaçu, vi-as antecipadamente como um objetivo prioritário numa deslocação em serviço ao Brasil, quase vinte anos depois de Niagara. Assim, programei a deslocação de modo a satisfazer a curiosidade que crescera ao ver as reportagens na televisão. Comprei com a devida antecedência os bilhetes de avião e, depois do congresso, foi a primeira aventura que vivi. Mas não começou muito bem. No voo para lá, vi do alto o que teria sido a imensa floresta, já retalhada por incontáveis explorações agropecuárias. E vi os meandros do rio Iguaçu e o Rio Paraná, para onde o primeiro corre e vi a descomunal barragem de Itaipu, que durante muitos anos ostentou o título pouco recomendável de ”a maior do mundo”. Grande tamanho, enormes impactos. Finalmente, ao aproximar do destino, o piloto efectuou uma volta por cima das cataratas proporcionando-nos o primeiro contacto com esta maravilha natureza. O dia seguinte foi memorável e começou com a curta viagem até à fronteira. Depois, o deslumbramento no lado argentino das cataratas. Foram horas e horas de novas sensações junto ao enorme e vibrante precipício, em passadiços sobre a água que se despenhava em quantidade assombrosa. E tudo no meio de uma floresta tropical riquíssima, tantas espécies que nunca tinha visto! Nuvens de borboletas, aves coloridas, mamíferos descarados, pequenos e grandes lagartos… Uma das melhores experiências que tive em toda a vida.  Uma noite bem dormida antecedeu mais uma aventura sem igual. Desta vez do lado brasileiro, o excitante percurso de barco até muito perto da base das cataratas foi o ponto alto do dia. Devo dizer que não era um barco de passeio, era um grande semirígido armado com dois motores desproporcionadamente grandes. Só quando chegámos mais perto da primeira queda e o rio estreitou verifiquei que, mesmo com tantos cavalos, era muito difícil vencer a corrente redemoinhante que vinha de montante. Tantos anos a navegar em tantos rios não me tinham preparado para tamanha manifestação de força hídrica! A muito custo, o barco avançava e recuava contra a corrente, cavalgando a forte ondulação que provocava risadas de medo em alguns dos passageiros. No meio do rio branco de espuma, baloiçávamos vigorosamente entre margens altas de quase uma centena de metros, de onde caíam a pique múltiplas e pesadas cortinas de água. Debaixo de intensa “chuva”, tive de proteger a máquina fotográfica muito antes do ponto de retorno. Fiquei sem fotografias, mas não esquecerei a sensação intensa de testemunhar de perto tão grandioso espectáculo.

O fascínio que temos pelos grandes fenómenos da natureza tem colocado as quedas de água nas listas de monumentos naturais bem preparados para receber viajantes e turistas um pouco por todo o planeta. Assim sendo, não será de admirar que tenha, ao longo dos anos,  aproveitado para visitar todas aquelas que se situavam ao alcance. Acrescento abaixo uma breve descrição de algumas delas.

A queda  mais famosa da Islândia, de seu nome Gullfoss, é um enorme degrau de rochas vulcânicas de formato retorcido, por onde uma forte torrente se escoa ruidosamente, sobretudo na época de maior degelo. Um imenso caudal desce do glaciar, libertando a água acumulada ao longo de muitos meses de inverno. Tivemos a sorte de a ver, tal como outras, grandes e não tão grandes, pois tantas existem por toda a ilha. 

Na América do Norte, a Horsetail Fall não tem muita água, nem é a queda mais alta, tem ”só” 480 metros, mas é famosa pelos seus efeitos de luz ao pôr do sol. Chovia quando visitámos o Yosemite National Park, e a vista intermitente do El Capitan e da cascata foi dificultada pelas nuvens baixas, não causando o impacto emocional que provocaria em diferentes circunstâncias. No regresso, tão triste como o dia, um coiote encharcado até aos ossos nem se deu ao trabalho de fugir da beira da estrada. Os miúdos deliraram.

No outro lado do planeta, perto de Cairns, Austrália, The Barron Falls é uma cascata que vimos do comboio panorâmico de Kuranda. Sem ser muito grande, nem tão elegante como outras que vimos na floresta tropical mais a sul não deixou de ser impressionante. O forte caudal em borbotões espumosos por entre retorcidas formações rochosas avermelhadas dava-lhes uma grande beleza cénica.

Na Ilha das Flores, nos Açores, conheci também uma paisagem digna de constar neste texto. A Cascata da Ribeira do Ferreiro é lindíssima. Não por ter muita água, até tem pouca. A sua altura também não é muito importante. Já o cenário é soberbo. Quem percorre o trilho sinuoso que vem da estrada, atravessa um denso bosque e, de repente, depara-se com um espelho de água enquadrado por uma escarpa altíssima. Do topo desce a cascata a pique, vencendo primeiro um desnível de 200 metros, descendo depois em degraus até descansar no Poço da Alagoinha ou Lagoa das Patas. Mas não vem só. Por toda a largura da escarpa, e são centenas de metros, muitos fios de água riscam de branco uma tela de pintor impressionista completamente preenchida em pinceladas de verdes claros e escuros. E tudo reflectindo-se na superfície perfeitamente espelhada da lagoa.

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Rio Luando.  CC0cc1Paulo Santos

Para terminar esta viagem pelas quedas de água não podia deixar de lembrar as que vi em Angola, quando criança ou quando era mais espigadote. As do rio Cuemba, as do rio Luando, as Cachoeiras do Binga no Rio Keve… Pelo contrário, nunca tive oportunidade de ver as duas maiores e mais famosas, as de Ruacaná, no sul, e as do Duque de Bragança ou Quedas de Calandula, o nome actual, a norte, ambas com um desnível de mais de cem metros.

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Vista parcial das Cataratas Vitória.  CC0cc1Paulo Santos

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