DUNA 45

Silêncio. Sol. Sombras ramificadas projectadas no solo, ramos negros recortando o céu muito azul, quase cobalto, em contraste com a imensidão avermelhada que ocupa o horizonte em frente. Dunas. Uma delas, enorme, de curvas suaves, parece mover-se muito lentamente. Pura ilusão. Move-se, sim, mas tão devagar ao longo dos anos que o olhar não conseguiria nunca medir. Longos minutos de silêncio em contemplação.
Um som aparece no ar. Primeiro muito suave, depois em crescendo até se manifestar em pleno, e dramatiza de forma perfeita toda a beleza hipnotizante do deserto que se estende indefinidamente. Nunca os “Echoes” dos Pink Floyd soaram tão bem. Novamente silêncio, como que a digerir o momento mágico.
Olho para a grande duna com atenção. Parecem formigas em carreiro mas são pessoas, umas sobem ainda, outras já na descida, formando uma longa fila. Na dobra da duna, recortadas no céu, parecem pequenos espinhos no dorso de um animal gigante adormecido.

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Parecem formigas em carreiro…

O Parque Nacional Namib-Naukluft foi a primeira maravilha que vivemos numa memorável viagem pela Namíbia. Ao nascer do sol já estávamos no parque, um frio a penetrar até aos ossos, o vento a cortar as orelhas. O veículo acompanhou os rodados deixados no dia anterior e avançou por uma espécie de vale por entre dunas até chegar ao fim do percurso, um terreno com plataformas erodidas de argila salgada a espreitar nos espaços entre a areia. Dispersas pela paisagem, conservadas pelo sal e pela secura extrema, as memórias daquilo que foram árvores, agora paus ressequidos ainda de pé, centenas de anos passados desde que cumpriram as suas principais missões neste ecossistema.
Estávamos em Sossusvlei e aqui, como tudo o restante, as dunas são de outra dimensão, que dizem ser as maiores do planeta, ultrapassando os trezentos metros de altura. A mais famosa, a duna 45, é de fácil acesso e situa-se mesmo em frente ao ponto onde me encontrava, acompanhado pelo amigo Vº. Por ela as formigas humanas subiam a custo, enterrando-se na areia fina, e tentando atingir o cume, 170 metros acima da base da duna.
Deixei-me levar pela sensação de plenitude, desvalorizando o facto de já não poder subir também, e agradeci em silêncio pois era fantástico estar no deserto, mais um a somar aos que já conhecia, e que verdadeiro deserto!
Num ambiente tão inóspito, dir-se-ia estar vazio também de vida. Engano! No percurso pelo vale de areia observámos dois guelengues ao longe e avestruzes bem perto. Arbustos esparsos, acácias de folhas coriáceas e algumas herbáceas onde se escondiam escaravelhos, denunciados pelas marcas das pequenas patas na areia. O guia do parque mostrou-nos também a planta que os bosquímanos usam para obter água potável, espremendo o seu bolbo depois de o desenterrarem de bem fundo no chão. Mais tarde, quando se colocou água num recipiente para lavar as mãos, surgiu do nada um bando de pardais-do-cabo, bebendo descaradamente do preciso líquido ensaboado. Curiosos exemplos de resiliência da vida no mais antigo deserto do planeta.

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Dunas em Sossusvlei. CC0cc1Paulo Santos

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