MUNIÇÕES FORA DO PRAZO

No lixo do quartel abandonado pelas tropas portuguesas havia muito material queimado, sem utilidade. O que nos atraiu a atenção foi um amontoado de balas de aspecto antigo, cápsulas oxidadas, muitas  já com verdete. Levámos uma mão cheia delas. Não imaginávamos o perigo que viria de tal infantilidade em período de escaramuças entre os guerrilheiros que então tentavam controlar o território angolano. 

Alguns dias depois, resolvemos desmontar as munições e juntar a pólvora num montinho para ver como queimaria. Atirado de longe um fósforo, apagou-se. Outro  e mais outro e nada. Até que um de nós chegou o isqueiro aceso à pólvora renitente. Puf! Ardeu com pouca vontade e um fumo azulado, uma decepção. Os projécteis foram repartidos entre nós com a ideia de lhes fazer um furo e usá-los como pendentes em colares, um adereço popular na época. Sobraram as cápsulas, o que fazemos com isto? Alguém perguntou se o fulminante ainda estaria bom. Ninguém fazia ideia e daí até decidirmos experimentar foi coisa que não demorou. Prendeu-se uma cápsula numa tábua com furos que estava num monte de entulho ali por perto e num prego ferrugento do mesmo lote. Uma pedra serviu de martelo e aqui vai disto. Bum! Ainda não tinha passado um minuto de satisfação pelo sucesso da manobra e já estávamos acossados por dois ou três guerrilheiros, armas apontadas a nós: “Onde está o pistola?”

Tinham surgido a correr e repetiam de modo intimidante “Onde está o pistola?” Foi complicado explicar. Atrapalhados, uns mais outros menos, mostrámos a montagem de ignição. Não queriam acreditar. Talvez desconhecessem o que é o fulminante e o processo que desencadeia a explosão e a saída do projéctil. Afinal, uma bala era uma bala, e “uma bala só funciona no pistola!”  Acresce ao enredo da história que as armas da população civil tinham sido confiscadas anteriormente, e a posse de uma delas, aparecendo nas mãos de adolescentes descuidados, seria um problema muito grave.

Entretanto, chegou um adulto. Saindo do edifício da administração colonial portuguesa ainda em funções, teve certamente algum ascendente perante a situação. Tentou acalmar primeiro os nervosos militares. Depois perguntou-nos o que tinha sucedido e explicou-o aos ainda inflamados guerrilheiros, lentamente, com palavras escolhidas. Estes, finalmente, baixaram os braços. Talvez tivessem ficado convencidos de que não havia armas na mão de adolescentes. Relutantemente, acabaram por se despedir. Saíram ao mesmo tempo que nós, de orelhas caídas, ficámos a receber um vigoroso sermão pela nossa irresponsabilidade.

O que poderia ter acabado de forma muito complexa para nós e para as famílias, afinal acabou bem, sem mais consequências. Cada um seguiu para casa com os despojos da brincadeira. Quanto ao colar de balas, nunca fiz o meu.

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