Libertando-se repetidamente do solo, estalidos metálicos, suaves, quase imperceptíveis. O som vinha de todas as direcções e acentuava-se quando as nuvens se afastavam e deixavam o sol aquecer aquela extensa planície. O piso muito irregular impedia caminhar, era com altos e baixos de lama seca, endurecida por grande quantidade de brilhantes e minúsculos cristais de sal. Ladeado de colinas coloridas, o deserto estendia-se no horizonte a perder de vista, 49 metros abaixo do nível do mar. Era o famoso Vale da Morte.
Ao contrário das ilustrações mais ou menos fantasiosas com que o vira retratado em livros de aventuras no antigo Oeste Americano, não se viam esqueletos de cavalos, cabeças de bovinos em estacas de madeira ressequida, botas encarquilhadas. Nem sequer abutres a voar em círculos, mas não fiquei decepcionado. Valeu a sensação incrível de estar no meio de um fenómeno natural único, hoje integrado no Death Valley National Park. E foi emocionante ver e sentir in loco o ambiente agrestíssimo para quem ali teve de passar, com métodos precários, rudimentares, em busca de melhores condições de vida. E não foi assim há tanto tempo como isso.
Percorremos um pouco daquela terra estranha por um trilho de pé posto, esbranquiçado pelos sais em pó. De modo insólito, naquele deserto salgado, vimos água! Um riacho escoava lentamente em meandros pelo solo meio arenoso. Sabia da sua existência mas foi uma surpresa encontrá-lo, julgava-o pouco acessível. Afinal, a estrada passava-lhe mesmo ao lado. Sabia também que aquele líquido cristalino contém dissolvidos em cada litro muito mais do que os 37 gramas de sais que a água do mar tem, em média. Comprovei-o, molhando um dedo e tocando com ele na ponta da língua. Ahhhh!
Estando na margem, outra surpresa: peixinhos nadavam rapidamente de um lado para outro. Já tinha lido sobre eles, mas nem me ocorreu que fosse fácil observá-los. Talvez por sorte, ali estavam aqueles notáveis produtos da evolução, os vestígios da fauna de um grande lago que foi secando por milhões de anos. O Cyprinodon salinus tem um nome esclarecedor. Do latim, cyprinus significa carpa, do grego, odous significa dentes, e salinus será uma caracterização que não carece de explicação.


Paulo SantosResumindo, um ser vivo semelhante às carpas mas com dentes e vivendo em ambiente salgado. Tem um comprimento médio que não chega a quatro centímetros e pode suportar água com mais sal que no oceano, até ao quádruplo! Não satisfeito com a proeza, este super peixe não fica muito incomodado quando o verão aquece a água do ribeiro até 47 °C. São condições tão adversas que tornam impossível a existência de outros peixes. Vivendo num ambiente pobre, estes resistentes alimentam-se principalmente de algas e cianobactérias, mas podem consumir alguns dos poucos e minúsculos crustáceos e moluscos e que resistem também à elevada salinidade que ali reina. Esta espécie era conhecida em apenas dois locais no Vale da Morte e foi depois levada para outros cursos de água do parque, numa tentativa de reduzir o seu risco de extinção.
Resta terminar a memória com uma observação complementar. No parque de estacionamento que se localizava nas proximidades, e que se destinava a disciplinar a paragem das viaturas dos visitantes, estavam também umas instalações sanitárias. Muito bem lembrado. Ao usá-las, outro insólito. No lavatório das mãos o seguinte aviso: “Caution! Hot water.“ E estava mesmo quente, apesar do calor que se sentia lá fora. Não é que aquela mentalidade de desperdício energético tinha colocado um aquecedor elétrico para a água da torneira num wc no meio do deserto!

Death Valley National Park. 
Paulo Santos