Sem capacete, à boleia de um motociclista benemérito, a viagem de regresso a Saragoça foi penosa. A canela a queimar no escape, o pesado saco de cabedal a doer, pendurado ora num braço ora no outro, a estrada que nunca mais acabava…
Depois de algumas horas naquela terra que é um grande centro comercial, tinha comprado o que queria, e a bom preço. Ia aparecer em casa com uma boa surpresa. Os baixos impostos permitiam às muito concorridas lojas praticar preços menores do que as dos países limítrofes, e a relativa tolerância nas fronteiras provocava um fluxo considerável de consumidores gauleses e ainda dos nuestros hermanos. Também por cá se ouvia dizer “comprei em Andorra” com alguma frequência, sobretudo material fotográfico, relógios, electrodomésticos caros e equipamentos de campismo ou de montanha, adquiridos a metade do que custaria em Portugal.
Estando a completar uma formação técnica de duas semanas em Saragoça, em 1985, tinha decidido usar um domingo livre para revisitar Andorra, local onde tinha já ido comprar a minha primeira Canon, cinco anos antes. Não era assim tão longe, cerca de trezentos quilómetros, e pensei que não seria de perder a oportunidade para comprar a bom preço alguma coisa com utilidade e que não tivéssemos em casa. Já não tenho presente se a aquisição terá sido planeada com antecedência ou se terá ocorrido em função do que havia nas novidades electrónicas, mas o facto é que comprei o aparelho. Tinha-o já acomodado no saco de viagem, livre da protecção de cartão, plástico e esferovite que trazia de origem. Um bom e compacto VCR, isto é, um leitor/gravador de cassetes de vídeo, VHS é claro, pois era o formato que se tinha imposto a nível internacional.
Resolvido o assunto que me tinha levado ao Principado nos Pirinéus, estava na hora de regressar mas, ao contrário da ida em que tinha sido fácil e rápido encontrar um automóvel que me desse boleia, comecei a ficar inquieto com as sucessivas recusas. Então, quando a mota parou ao meu polegar levantado, nem hesitei. Cheguei derreado, já noite, e o saco de viagem tinha uma grande mancha negra de tantas vezes se encostar ao escape. Nunca mais foi o mesmo.
No dia seguinte foi o regresso ao Porto e deixou também motivo para ser recordado. Primeiro no comboio rápido até Madrid e depois no internacional para terras lusas, em carruagem-cama, um pequeno luxo pago pelo Instituto de Zoologia da Universidade. Chegámos à fronteira a meio da noite, e aí decorreu o espectáculo patético do costume. Muito barulho e a primeira passagem dos agentes da autoridade. Bateram na porta com “suavidade” e acenderam a luz do compartimento dizendo “É FAVOR PREPARAR OS DOCUMENTOS!” Minutos depois regressaram, entraram e conferiram a identificação, os vistos, as autorizações militares de saída do país. Saíram aqueles e entrou outro, lanterna incómoda na mão “Alguma coisa a declarar?” Ninguém tinha. “O senhor, é favor abrir o seu saco.“ Depois igual para outro passageiro. Depois virou-se para mim “O senhor…” Não teve necessidade de completar, o saco de cabedal estava já aberto em cima do saco-cama, de dentro do qual eu não tinha saído. Comecei a espalhar alguma roupa suja e papelada do curso. “E nesse saco pequeno?” Abri a bolsa que tinha a máquina fotográfica, e disse-lhe que era velha. Assim parecia, não implicou. Ainda iluminou e farejou por baixo das camas antes de se retirar.
Apagadas as luzes, esperámos um tempo que pareceu não ter fim até que o comboio retomou o andamento. Deixei passar muito tempo, e era já dia quando tirei o VCR de contrabando de dentro do saco-cama e arrumei tudo no saco de cabedal.
O aperto sentido foi largamente compensado com a utilização intensa das cassetes, sobretudo com as nossas crianças que não tardariam a chegar. Quantas vezes o sossegámos com o som e as cores brilhantes do excerto gravado das cotações da bolsa? E quantas vezes viu ela o Rei Leão, vocalizando os diálogos? E quem se lembra dos clubes de vídeo? E…