Quantos cordões de ovos levei do ribeiro para casa? Quantos sapinhos vi desaparecer no quintal? Observar a maravilha das metamorfoses, repetidamente, não cansava os nossos olhos de crianças.
Ao regressar da escola primária, parava muitas vezes no fim da mata que rodeava o bairro onde morávamos. Junto ao pequeno ribeiro que aí corria lentamente, eu passava alguns minutos em contemplação. Adorava ver os peixinhos a nadar no fundo, momentâneos espelhos prateados ao receber os raios de sol, as corridas de gordas carochas à superfície, os movimentos ondulantes das plantas aquáticas. Por vezes, no meio delas e serpenteando também ao sabor da corrente, um fenómeno raro e intrigante. Só sabia que eram ovinhos de sapo, pequenas pérolas escuras e brilhantes, misteriosamente enfiadas em finos e longos tubos de gelatina transparente. Como acontecia tal fenómeno? Era uma criança mas sabia já que muitos animais põem ovos de onde emergem os descendentes. Tinha observado as galinhas e acompanhado o ciclo do “bicho da seda”, mas os ovos protegidos em longo cordão era mistério que estava muito para lá das incipientes capacidades explicativas do mundo que me envolvia. Oh, pueril compreensão da vida, que tornava a gelatina mais estranha do que a própria metamorfose…
Levar para casa peixinhos do rio e mantê-los vivos no aquário, tentei várias vezes. Sem bons resultados, diga-se desde já. Cedo descobri que a replicação do conjunto de meios necessários à vida desses organismos fora do seu ribeiro era um processo mais complexo do que juntar água e já está. Se o vizinho tinha há tanto tempo um velho canário numa gaiola, quais as razões que causavam a morte dos meus peixes em tão poucos dias? Só as descobri muitos anos mais tarde, com o estudo da ecologia.
Levei também, algumas vezes, grandes carochas esverdeadas para casa, quando lograva segurar com sucesso uma delas na mão pequena, tanta força faziam com as poderosas patas espinhosas. Ao contrário dos peixes, não morriam. Contudo, invariavelmente, no dia seguinte, os lindos bicharocos já não estavam no recipiente que lhes tinha cuidadosamente preparado com água e algas do ribeiro. Enquanto as observava, não conseguiam escapar, escorregavam nas paredes do pequeno aquário… O seu desaparecimento nocturno permaneceu um enigma até descobrir que tinham asas. E então deduzi como fugiam: simplesmente voando.
Com os ovos era diferente, a experiência durava e compensava. Primeiro porque demoravam vários dias até que eclodiam minúsculos girinos. Depois, porque os via crescer, as patinhas a tomar forma, a cauda a desaparecer… Enfim, era sucesso garantido e as miniaturas de sapo iam à vida deles.
A infância passada em proximidade com a bicharada foi factor determinante no que respeita ao que me viria a proporcionar pequenos e grandes prazeres em adulto. O gosto e o entusiasmo com a natureza foram sempre indissociáveis do modo como organizei tempos livres, férias e viagens, sozinho, com a família ou com amigos.
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