TREINO MILITAR

Deram um par de botas verdes de lona e uma farda a cada um. Uma semana depois devolvi a farda e fiquei com as botas. Sim, o meu treino militar teve a duração de uma semana, e mais não quis. 

No ano de 1974, as forças armadas de cada um dos movimentos de libertação de Angola foram tomando posicionamento pelo território, incluindo a terriola agrícola onde vivíamos, a vila General Machado ou Camacupa,  designação local antes da construção da via férrea. Situava-se no Bié, na zona central da então colónia portuguesa.

Por toda essa região tinham operado durante anos as forças da UNITA, de forma moderada, e as populações rurais estavam muito receptivas à sua influência política e domínio militar. Pude testemunhá-lo pela entusiasmada recepção ao líder Savimbi, um dia em que ele chegou de comboio para um comício na vila. Alguns milhares de pessoas aguardavam-no nas ruas em volta da estação. Num impulso pouco meditado, avancei a custo até à entrada e aí barraram-me a passagem, adolescente sem cartão partidário nem apadrinhamento político. Mas eu vinha preparado e deixaram-me entrar quando mostrei uma máquina fotográfica pouco mais que rudimentar, dizendo que ia fotografar o chefe. E consegui.

Por essa altura, os guerrilheiros desse movimento controlavam já a esquadra de polícia e o edifício da administração da vila. Contudo, não tinham quadros nem eram influenciados pelos afiliados locais com formação. Eram boçais, maltrapilhos e mal armados, usavam velhas espingardas Mauser, provavelmente subtraídas à tropa portuguesa, ou por esta cedidas. Não impunham respeito, só alguma apreensão e receio, pelo menos a quem reflectisse objectivamente sobre a situação política e militar, e sobre a sua evolução.

Já em 1975, tinham chegado também à vila os da FNLA e vinham armados com metralhadoras modernas. Eram disciplinados e escolarizados, mas desenraizados, não conheciam nem as terras nem as línguas faladas na região, o português e o umbundo. Falavam francês do Congo e, provavelmente, muitos seriam mercenários. Patrulhavam a região com dois veículos equipados de armas de grande calibre, numa clara demonstração de poder. As chefias traziam um discurso conciliador, inspiravam alguma confiança. Aparentemente, era do lado mais conveniente para se estar em tempos conturbados. Quando lançaram o programa de formação de uma unidade paramilitar para defesa da vila, pareceu-me boa ideia participar. Pensei que seria uma boa relação, vantajosa em termos de protecção da família contra as arbitrariedades que já então se verificavam. Seria um reforço dos conhecimentos familiares junto de alguns membros da UNITA.

Inscrevi-me e fui aos exercícios mas não me dei bem na milícia. Envolvia obedecer a tudo sem argumentar, correr em volta do campo de futebol, fazer elevações, rastejar entre obstáculos e outras idiotices sem sentido, pelo menos para mim que nada entendia do assunto. Saí antes de pegar em armas, rapidamente me apercebi que não fora talhado para a tropa. Além disso, como tinha preenchido a papelada, estava já registado como simpatizante e assegurara tratamento preferencial, caso fosse necessário. A saída “a bem” foi deferida pelos superiores sem entraves e, como escrevi no início, até me deixaram ficar com as botas.

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