CAVEIRA DE CRISTAL

Uma caveira esculpida em tamanho real num grande cristal de quartzo, atribuída aos astecas ou aos maias (1), cabeças encolhidas de vítimas de tribos amazónicas, múmias Incas, clépsidras e tantos outros mecanismos para medição do tempo, armas e armaduras, instrumentos musicais e de navegação, autómatos pioneiros, ferramentas, maquinaria diversa e ainda estranhos aparelhos antigos, um sem fim de objectos vindos de todas as épocas, latitudes e longitudes. O conteúdo do Museum of Mankind  fascinou-me.

Em 1981, a primeira visita a Londres foi marcante, por muitas razões. Sim, as aventuras em paragens icónicas, o ir à descoberta do mundo, foram certamente o principal. Mas foi igualmente importante, e de certa forma indissociável do  resto, testar os limites da autonomia e da capacidade de desenrasque, e ainda trabalhar na apanha de uvas para pagar o que mais desejava nesse tempo.

Terminada a vindima, a aventura continuou em Paris (como abordei em memórias já escritas, “Escaravelhos” e “Costeletas de porco com vinho do Porto”) dormindo numa pensão barata junto à Porte de Saint-Denis e aproveitando os dias a conhecer a cidade, os principais monumentos e museus, e a assistir aos espectáculos de rua, uma novidade para quem só conhecia os acordeonistas cegos a esmolar à porta das igrejas. 

Só uns dias depois comprei bilhete de comboio, o nocturno para a capital do outro lado do Canal da Mancha. A noite foi passada no salão do ferry, que balouçava fortemente no mar zangado, comparável este à má catadura dos agentes da fronteira na manhã seguinte. Tive de lhes responder a incontáveis perguntas, apresentar o bilhete de regresso, mostrar as libras compradas em França e também os “cheques de viagem” que levava do Porto para uma emergência. Tinham o valor hoje ridículo comparável a cem euros, emprestados e mais tarde devolvidos aos pais, mas naquele tempo essa quantia valia bem mais do que possa parecer. O inquiridor fardado deixou-me finalmente passar quando anunciei ao que ia, comprar equipamento fotográfico, o que era absolutamente verdadeiro. 

Nos dias seguintes a aventura continuou intensa. Chegava à cama com os pés amassados mas com os olhos cheios do nunca visto. Comecei por procurar as ruas onde se acotovelavam grandes e pequenas lojas de fotografia. Entrei, procurei o que pretendia, comparei os preços e tomei as devidas notas. Entrei em livrarias com formidável diversidade de temas técnicos, a preços acessíveis, e comprei dois ou três livros relevantes para os estudos. Fui apreciando a arquitectura da cidade, atravessei os parques, vi os principais monumentos, entrei em museus…

A ida ao Museum of Mankind terá sido a cereja que ainda hoje coroa a lembrança boa dessa primeira vez em Londres. Aí tive a oportunidade de ver tantas curiosidades sobre as quais tinha lido ao longo da vida, mas das quais nunca tinha visto imagens. Devo lembrar a quem lê que esta aventura decorreu num tempo anterior à multiplicação de plataformas de disponibilização de conteúdos multimédia. Em Portugal, a televisão era pobre e as revistas estrangeiras eram caras. A internet ainda estava por nascer. Nesse museu vi tantas coisas que desconhecia completamente, e que acrescentaram saber ao que já tinha e, sobretudo, consolidaram a consciência sobre a magnitude da minha ignorância… Visto de outra maneira, aquelas horas passadas no museu foram completamente recompensadoras e, para além do maravilhamento, amplificaram a vontade de viajar, de conhecer melhor, de saber mais.

No dia anterior ao regresso, fui comprar o material fotográfico nas lojas onde tinha identificado os melhores preços. Comprei também uns bons binóculos, encomendados pela Anjos. Na pensão, arrumando tudo na mochila, desfiz-me de todas as embalagens que pudessem denunciar tratar-se de equipamento novo. Uns dias mais tarde, antes de atravessar a fronteira entre Espanha e Portugal, sujei com terra as borrachas das objectivas novas para parecerem usadas. Foi o modo de ultrapassar a inspecção da guarda fiscal, sempre pronta a apreender tudo o que fosse novo, de modo a cobrar impostos de importação.

No final da viagem sobrou dinheiro das vindimas. O empréstimo foi devolvido aos pais, mas só o correspondente a 60 euros, o valor dos cheques de viagem sobrantes. Perdoaram o valor em falta. Afinal, sempre tinha usado uma parte deles no último dia, para não trocar moeda francesa a taxa desfavorável.

Há poucos anos, preparando com antecedência o que gostaria de ver e rever numa deslocação à capital do reino dos britânicos, deparei-me com uma notícia inesperada. O museu tinha encerrado e o  seu espólio estava disperso em coleções privadas e no British Museum. Restou a nostalgia da visita feita quando era um jovem estudante universitário a descobrir o mundo.

Nota 

  1. Há pouco tempo, li que estes crânios apresentados como sendo pré-colombianos, astecas ou maias, afinal eram falsificações de negociantes de arte do fim do século 19 e início do século 20. Com a sua aldrabice, tinham fomentado teorias rebuscadas sobre tecnologias perdidas e dado corda à imaginação de muitos, sempre em busca do insólito e do fantástico para dar mais cor à vida.

Deixe um comentário