As palavras estavam do avesso e como que arrepiadas. Decifrar o texto na superfície ondulada do novelo de cinzas foi um desafio. Feitos detectives, entusiasmados na ânsia da descoberta, a rapaziada dissecou lentamente o stêncil queimado que se desfazia a cada toque. As frases ainda legíveis foram verbalizadas lentamente, palavra a palavra, para que todos os presentes tomassem conhecimento do conteúdo do documento. “Ninguém vai dizer!” Claro está que foram…
Uma pausa no enredo para explicar à geração das impressoras e das fotocópias o que era um stêncil. Nos anos 70, para imprimir alguma coisa em muitas folhas de papel, era possível recorrer a uma tipografia. Mas havia a uma metodologia mais flexível usando uma invenção de Edison, o chamado mimeógrafo, mais conhecido por copiadora. Usando uma máquina de escrever, equipamento presente em todos os escritórios e em muitas casas, o texto a reproduzir em muitas cópias era escrito numa folha plastificada, chamada stêncil, que ficava perfurada. A folha era então fixada sobre o rolo da copiadora, já embebido em tinta. Depois girava-se uma manivela e a máquina colava ao rolo, automaticamente, as folhas de papel a imprimir, uma a cada volta. A tinta atravessava os orifícios em forma de letras e ia para as folhas em branco. Mais uma volta e a folha impressa era atirada para um tabuleiro, voando uma fracção de segundo necessária para secar antes de cair por cima da anterior sem esborratar. Também de modo automático, um tubo era pressionado para libertar mais tinta e manter o rolo sempre abastecido. No final, o stêncil podia ser guardado para imprimir mais cópias ou ia para o lixo. Era um sistema de baixo custo, fácil de usar, e só desapareceu quando as fotocopiadoras ficaram baratas.
Voltemos à memória. No dia do teste quase toda a turma sabia. Uns sabiam algumas perguntas decifradas no tal stêncil, os restantes sabiam que os outros sabiam, e ninguém sabia da tempestade que estava para vir. O teste foi respondido sobre brasas, expectantes uns, zangados outros, ignorantes muito poucos. Depois da denúncia é que as coisas se complicaram…
Um ou dois dias depois, uma rapariga despeitada nos dois sentidos disse à mãe, que disse à directora, que suspendeu as aulas. Formou-se uma mesa de inquirição e, um a um, todos fomos interrogados. Tudo se esclareceu. Alguém nunca identificado tinha visto o senhor Justino sair da secretaria e afastar-se da escola para queimar papéis, como fazia frequentemente. Naquele dia, o rapaz mistério teve a ideia ir espreitar a fogueira apagada e lá estava o dito stêncil queimado, mas com algumas frases visíveis, ainda que do avesso. Entre elas, destacava-se em maiúsculas sublinhadas o seguinte: “Prova de”, seguido de letras incompletas. Comentando a descoberta, logo se formou o grupo dos detectives, e a sequência dos acontecimentos já a sabemos.
Enquanto não terminou o processo o ambiente estava pesado, silencioso, falava-se de expulsões, de polícia, de encerramento da escola. Não nos cabia um feijão. No final, para além do grande sermão e do teste anulado, nada mais sucedeu e o assunto foi abafado. Se soubessem na capital o que se tinha passado, quem tinha mais a perder era a directora, a primeira responsável pelo negligente método de gestão dos enunciados das provas. E mudou o método, claro. Daí em diante, o senhor Justino passou a desfazer bem as cinzas, pisando-as repetidamente antes de lhes virar as costas.