HOTEL AEROPORTO

No primeiro dia não vi o sol. Nos seguintes mal apareceu, encoberto pelas nuvens escuras, carregadas, trazidas por um vento frio. Chovia. Daquela chuva miudinha, chata, persistente. As árvores já tinham perdido quase toda a folhagem. Os ramos nus, erguidos ao céu, pareciam mãos com dedos nodosos e alongados. Folhas mortas, castanhas, amarelas, amontoavam-se no passeio molhado, na rua, no relvado em frente. Era o outono como nunca o tinha visto, cheiros orgânicos que nunca tinha inalado, bandos de pardais barulhentos que não me recordava de já ter ouvido.
Dentro do amplo e frio armazém, centenas de pessoas aguardavam. Uns por alguém que os iria buscar, já tinham para onde ir, outros esperavam por uma solução, um destino ainda por definir. Como num grande tabuleiro de jogo, pequenos rectângulos estavam dispostos lado a lado, muitos mesmo, a perder de vista. Eram cobertores esticados no chão e marginados por malas e sacos de viagem, demarcando o espaço de cada agregado familiar, simbolicamente encolhido pelas circunstâncias. Estranhamente, ou talvez não, pouco se ouvia para além das crianças e de alguém a soluçar baixinho. Era um jogo em que todos estavam a perder.
No final de outubro de 1975, a poucos dias da declaração de independência de Angola, a ponte aérea Luanda-Lisboa debitava milhares de refugiados de uma guerra jogada em vários outros tabuleiros, internacionais, onde todos queriam ganhar. Em consequência, os vastos recursos daquele território estavam a ser prometidos em troca de armamento, mercenários e outros serviços e apoios. A falta de maturidade política ditou os restantes ingredientes de uma caldeirada que cedo azedou numa longa guerra civil. Esta forçou a fuga de muitos e muitos para Portugal, mas também para outros países onde havia emigrantes lusos, África do Sul, Rodésia, Brasil, EUA, Canadá, França…
Foi nesta onda humana que acabámos por nos encontrar, alguns meses depois do início de confrontos entre as várias forças militares espalhadas pelo território. Foram muitas etapas em estadas barradas por homens armados, uns mais profissionais, só queriam dominar o terreno, outros mais materialistas, espoliavam o que queriam de cada viatura que passava. Finalmente chegámos ao litoral e foi então que fomos oficialmente inscritos no caudal migratório organizado para repatriamento. O período imediatamente anterior à viagem aérea entre Luanda e Lisboa foi resumido noutro texto, que intitulei de “Marmelada para todos“.
Chegados à Europa também nós, como muitos outros, passámos por um desses armazéns no aeroporto de Lisboa transformados em alojamento de emergência. Foram três dias no “Hotel Aeroporto”? Não me lembro bem, mas um conhecido que trabalhava no IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais) providenciou a nossa transferência dali para fora. Do oito para oitenta, vi-me num hotel de verdade e lembro-me do muito valor que dei a camas, cadeiras, refeições normais, conforto, sossego… A passagem pelo Altis, um luxo que nunca tinha visto, foi de curta duração. Dois dias depois estávamos a caminho do Porto. Familiares da invicta tinham oferecido a casa para nos receber, até termos a vida organizada.
Terminara uma longa e perigosa aventura, iniciada três meses antes com o abandono da casa e pertences, e que mudou radicalmente a nossa vida. Envolvera carro, barco e avião, barreiras de controlo militar, sobressaltos vários, acampamentos provisórios, ouvir combates muito próximos sem certeza do desfecho… São cenas que recordo sempre que as notícias falam de refugiados ou imigrantes ilegais.

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