SUBITAMENTE FALTOU-NOS O CHÃO!

Vemos as copas das árvores passando rapidamente a poucos metros de nós. Ao longe, em frente, a neve cobre o topo dos montes. Subitamente, um som abafado de surpresa escapa-se das bocas, mãos agarram-se instintivamente. Falta-nos o solo! Estava ali mesmo e num segundo fugiu. Está agora mil metros lá para baixo. Estreita fita prateada, o rio corre no fundo do enorme e encaixado vale que sobrevoamos. As superlativas paredes mostram múltiplas camadas de sedimentos coloridos, páginas de um velho livro que nos conta a história do planeta.

A passagem do helicóptero de cabine transparente um pouco acima da floresta de coníferas tinha sido pacífica. Pelo contrário, o exacto momento em que passámos além das árvores e deixámos para trás a beira do grande precipício que é a margem esquerda do Grand Canyon… Foi de tirar a respiração. De uma altura de vinte ou trinta metros passámos sem aviso para o vale, profundo de muitas centenas de metros, toda a dimensão ciclópica desta maravilha da natureza subitamente revelada, encolhendo-nos instantaneamente em magia inesperada. O helicóptero, pontinho minúsculo na grandiosa paisagem, parecia deslocar-se em câmara lenta, longe que estávamos de todos os pontos de referência…

Tínhamos já visitado o grande precipício na tarde do dia anterior, mas a observação do Grand Canyon a partir dos miradouros não pode comparar-se à interpretação  dinâmica que a vista aérea proporciona. A suspensão no meio do vale é uma experiência verdadeiramente tridimensional e permite observar as duas faces em vários planos à medida que o helicóptero desce, sobe, se desloca para montante e jusante se aproxima e afasta da parede sul, mais baixa, ou da parede norte, topo coberto de neve.

Vinte minutos durou o deslumbramento, um dos pontos altos (que expressão tão adequada ao sucedido) de umas férias familiares inesquecíveis. Nessa manhã, tínhamos chegado ao pequeno aeródromo vindos de uma noite de repouso numa “Motor Inn” de beira da estrada, económica e tão característica do país. Depois da aventura aeronáutica voltámos ao cenário soberbo dos miradouros, aproveitado o sol do meio dia para fotografar a paisagem com cores mais quentes. Contudo, captar imagens ali é tarefa ingrata, tentativa vã de comprimir em pequenas tiras de película a imensidão do espaço que nem o olhar capta na sua dimensão real. Mesmo assim, fotografias espectaculares. 

Foi com relutância que virámos costas ao hipnótico cenário e reiniciámos viagem. Passada a barreira de saída do Parque Nacional do Grand Canyon, guardei como recordação o bilhete familiar adquirido no dia anterior. Era um papelinho que dava permissão para entrar no Parque durante cinco dias e vinha acompanhado de um folheto com informações básicas sobre o monumento geológico, e ainda horários, contactos de emergência, um esquema com os acessos, os parques de estacionamento e a localização do miradouros. Tinha custado cerca de seis dólares, quantia ridiculamente baixa para aceder a uma das mais famosas áreas protegidas do mundo. 

Era abril, fazia frio, e o destino seguinte já nos chamava, a Cratera de Barringer ou Meteor Crater do Arizona, a cerca de três horas dali. Era pertinho, só mais uma etapa num périplo de mais de cinco mil quilómetros em três estados, Califórnia, Nevada e Arizona, iniciado em Los Angeles uns dias antes e que terminaria em São Francisco. Aproveitámos aqueles dias o melhor que soubemos, visitando mais cidades icónicas como Sacramento, Santa Fé ou Las Vegas, e também outras maravilhas da natureza como o Vale da Morte, as sequóias gigantes, o deserto de Mojave ou Yosemite… Mas isso são outras histórias.

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Vista aérea do Grand Canyon. CC0cc1Paulo Santos

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