Não tinha ainda percorrido duzentos metros e já eu caía do carro. Pulso e joelhos esfolados, e também uma grande amassadela na autoestima. Era o preço de uma decisão menos ponderada, de uma má avaliação e, convenhamos, algum azar.
De visita a familiares, calhou passar o leiteiro no seu veículo adaptado com uma plataforma na parte de trás. Parava de vinte em vinte metros, retirava garrafas de leite dos caixotes onde vinham acondicionadas e deixava-as em cada casa. A miudagem do bairro, acostumada ao ritual, empoleirava-se na plataforma e percorria à vez alguns metros, saltando para a rua antes do homem sair em cada entrega. Vista pelo olhar de hoje, tal coisa será certamente desvalorizada, uma aventura pueril destituída de qualquer interesse. A criançada, contudo, pensava de outro modo. Desconhecendo as opções lúdicas que hoje estão à disposição de quase todos em grande diversidade, brincava-se na rua. Tudo servia, mesmo que fosse simples ou desprovido de propósito. Por isso, andar à boleia do leiteiro parecia mesmo divertido, e resolvi experimentar. Até ele ajudava, fingindo não saber da pequena transgressão. Subi e o carro reiniciou o andamento, mas mais depressa e não parou na casa seguinte. Só então me apercebi que não havia mais casas e o leiteiro, sem ver que ainda tinha um pendura, iniciara o regresso a parte desconhecida para mim. Eu não sabia onde iria parar, nem quanto tempo levaria a regressar, e passou-me fugazmente a certeza de irem céleres fazer o relato de tamanha imprudência… As consequências familiares poderiam não ser as mais agradáveis, se me é permitido o eufemismo. Em face das perspectivas que se apresentavam, tomei a decisão de saltar em movimento. A inércia tramou-me. Apesar de correr para compensar o lanço, tal não foi suficiente e testei a dureza e a textura do asfalto em doloroso trambolhão.
Fiz o que podia para ocultar as mazelas, mas andei empenado por uns dias. Vendo bem, até tive sorte. Podia ter acontecido algo muito pior.
No final da década de sessenta, teria eu oito ou nove anos, foi quando tomei conhecimento da distribuição de leite fresco em alguns bairros da então Nova Lisboa. Vinha em garrafas de litro, vidro grosso e amplo gargalo. Vinham seladas com tampas “de prata”, penso que seriam de estanho ou talvez já de alumínio. As pratas que não se rasgavam ao abrir não iam para o lixo. Alisadas, recortadas, moldadas, dobradas, em conjuntos, havia muitas maneiras de as usar e trocar na escola.
O produto engarrafado era delicioso, pelo menos pelos padrões de quem tinha passado a infância a beber leite reconstituído. Compravam-se grandes latas de leite em pó que davam para muitos dias. E que bem este tinha sabido ao longo dos anos. Depois do pó, não me lembro quando, começou a comprar-se leite fresco que tinha de ser fervido antes de usar, mas não era grande coisa. Disfarçava-se« com açúcar, canela ou pós mais ou menos achocolatados o sabor muitas vezes já “passado”. Só mais tarde, depois de chegar o fresco engarrafado, foi possível provar a novidade. Era mesmo muito melhor, não havia comparação, mas não havia no nosso bairro.