CHEIRA A MAR!

Depois de algumas horas de viagem, a estrada abandona as rectas intermináveis e começa a curvar-se, primeiro suavemente, depois de forma mais pronunciada, adaptando-se à orografia da paisagem. Um de nós exclama subitamente: Já cheira a mar!

É o segundo sinal de aproximação do fim da viagem, depois das curvas da via terem avisado. Faltam ainda três dezenas de quilómetros até ao mar, em linha recta, bastante mais pela estrada, e já o oceano nos anuncia a sua presença, apesar da densa camada de nuvens que o oculta. 

Aquele “cheiro a mar” é um fenómeno que presenciei repetidamente na beira do planalto angolano, ao fazer o percurso de carro de de Nova Lisboa ao Lobito. Começando aos 1700 metros de altitude na actual Huambo, a viagem acompanhava a suave inclinação do planalto ao longo de centenas de quilómetros. Depois, a queda brusca dos mil para os trezentos metros, apenas nas proximidades da costa atlântica, e finalmente a descida mais suave até ao mar, onde fica a cidade de destino. Empurradas pelos ventos diurnos, nuvens de pequenas gotículas de água salgada subiam o forte declive até à borda do planalto, sendo este fluxo fácil de detectar na transição do ar continental seco para o ar costeiro, mais húmido. 

Era mesmo um aroma salgado. Não o cheiro a praia ou a maresia, aquele que foi imitado no século vinte por famosas fábricas de perfumes. Recentemente, há pouco mais que uma década, tal aroma deixou de estar tanto na moda. Foi quando se vulgarizou o resultado das investigações que revelaram uma causa biológica com pouco glamour. São essencialmente compostos sulfurados, entre os quais o dimetilsulfureto (C2H6S) com origem em bactérias e algas marinhas, vivas ou em decomposição, e nas excreções de milhentos pequenos organismos que as consomem.

Como curiosidade, quando libertado da água do mar para a atmosfera, esse composto está associado à formação de nuvens e ao transporte de enxofre do oceano de volta aos continentes, uma grande influência de tão pequenos seres, não só no clima do planeta mas também nos ciclos biogeoquímicos, como salientou o visionário Lovelock na teoria de Gaia. Isto está mesmo tudo ligado…

Hoje, sempre que me aparece, o cheiro a mar convoca automaticamente esta memória infantil, mas já não a verbalizo para não me repetir, tantas vezes o fiz com alguma nostalgia.

One thought on “CHEIRA A MAR!

Deixe um comentário