O vendedor percorreu um a um o dicionário de adjectivos, mas só os bons. Primeiro descreveu as qualidades do animal, “admirável” e outros epítetos, depois as do produto, “melhor não encontram”, no mínimo…
Chapéu na cabeça, numa mão o microfone, na outra uma varinha, falava do alto de um estrado. A pequena multidão, atraída pelo discurso roufenho mas cativante, inusitado, foi-se chegando, mas não para muito perto da mesa… Era numa aldeia alentejana onde, vendo a feira na beira da estrada, tínhamos parado para comprar pão, em meados de janeiro de 1993.
“E vejam como é capaz de distinguir um ovo podre, este aqui, deste outro que está bom!” E espalhou os ditos em cima da mesa, coberta com um pano branco. Começou a bater com a varinha num caixote de madeira, e dele saiu lentamente, após alguma insistência, um respeitável ofídio, uma gorda jibóia. O luzidio animal não hesitou muito, língua a trabalhar, passou pelos ovos e escolheu como era expectável que acontecesse, engolindo um sem cerimónia. Sim, cobra não é burra, e usando o seu apurado olfacto, seguiu o odor mais apetecível.
O homem intercalava o espectáculo com a promoção do seu mostruário, um tabuleiro repleto de caixinhas com a suposta banha de cobra, alegadamente milagrosa. Curava ou aliviava diabetes, raquitismo, tuberculose, prisão de ventre, dores várias, incluindo as menstruais e reumáticas, falta de apetite, debilidade e outras maleitas, uma verdadeira panaceia. Rotuladas com imagem sugestiva, as caixas tinham um preço acessível, mas elevado se pensarmos no real valor do conteúdo, muito provavelmente de origem porcina. Podem ter a certeza de que seria muito dispendioso obter as cobras necessárias para encher tanta caixa…
Sim, é um facto que hoje já não se vê disto. É confortável pensar que o avanço educativo de uma boa parte da sociedade tenha levado a que a expressão “banha da cobra” passasse a ser usada de modo pejorativo, e hoje rotulamos de “vendedor de banha da cobra” alguém que é obviamente mentiroso ou charlatão. No entanto, reportagens recentes mencionam a permanência de comércio oculto de cabeças de víbora no mundo rural, uma continuada pressão predatória e ilegal sobre ofídios raros ou ameaçados.
Desengane-se, contudo, quem pense que terá havido significativo incremento no uso de espírito crítico pela maioria da população, quase toda escolarizada. A banha de cobra foi substituída por uma constelação de sucedâneos em embalagem semelhante aos medicamentos. São produtos mais dirigidos, menos generalistas, abundantemente anunciados na televisão e apadrinhados por carismáticos personagens. A banha mudou, os novos vendedores usam gravata e bata branca, e grande parte da população continua ignorante e presa fácil de uma corja sem escrúpulos cuja actividade está amplamente documentada, mas com pouco escrutínio. E a venda pelas plataformas mafiosas na internet não ajuda.
Memória dentro de memória, eu tinha já visto banha de cobra, da verdadeira. Teria meia dúzia de anos quando vi pela primeira vez uma jibóia. Na época das queimadas, em Angola, muitos animais fugiam ao fogo que se usava para “limpar” as zonas agrícolas que rodeavam a cidade. Inevitavelmente, alguns deles acabavam por se aproximar dos quintais e das casas, chegando mesmo a entrar. Num desses dias, uma grande jibóia teve o azar de se aproximar demais. Foram dar com ela enrolada na cancela de acesso à nossa habitação. O pai, diligente, foi buscar o machado. Perante os da casa, a observar do lado de dentro, e os mirones a comentar, espalhados do lado da rua, decepou-a com dois golpes certeiros. Ainda hoje guardo os detalhes da cena, cabeça cortada no solo, boca a mastigar o nada, o corpo a desenrolar-se lentamente da cancela, a banha espessa, branca, a escorrer pelas grades de madeira…