NUNCA MAIS!

Cheira mal! Muito mal mesmo, um odor de refinaria, corrosivo, enjoativo… Estamos longe e chega até nós, intenso. Lá ao fundo, duas ou três dezenas de vultos brancos movimentam-se coordenadamente, como num formigueiro. Aproximando-nos até às barreiras, vemos melhor e, afinal, não são bem brancos. Os fatos integrais são alvos, sim, mas estão manchadas de negro. E desta cor estão quase todas as pessoas, dos joelhos para baixo. E usam máscara. Em volta, um manto de breu cobre a areia e as rochas. De pá na mão, uns vão enchendo sacos que outros carregam até grandes recipientes de ferro, daqueles que se vêm nas obras a acumular entulho. 

prestige pas 2002
Voluntário a trabalhar. CC0cc1Paulo Santos

O Prestige afundou a quase 300 km de terra, mas foi largando crude em tal quantidade que provocou uma extensa maré negra na Galiza. Só o acaso ditou aos ventos que não soprassem aquela peste negra para cá. Ou isso ou as orações do nosso ministro da defesa… Devia ter muito crédito pois os espanhóis, que são muitos e até têm o São Tiago mesmo ali pertinho, também rezaram, mas levaram com tudo. Confirma-se: santo de ao pé da porta não faz milagres. Os pescadores ficaram em terra muitos meses, o crude acumulou-se no fundo em algumas zonas, centenas de milhares de aves morreram ou foram afectadas, também alguns golfinhos e tartarugas, o turismo teve forte quebra e apareceram doenças graves nos trabalhadores que participaram na limpeza das praias, muitos deles voluntários de vários países. Fora todos os efeitos que não foram identificados ou devidamente quantificados.

O velho petroleiro esteve a perder a carga durante uma semana (13 a 18/11/2002) enquanto o deixaram à deriva, e quando o rebocaram para longe de terra, julgando ser esse o modo de evitar a maré negra. Engano, varrer para debaixo do tapete nunca foi solução. Depois, o barco não resistiu.  Afundou, continuou a perder crude em grande quantidade, e foi parcialmente esvaziado, dois meses depois, já a quatro mil metros de profundidade. Apesar dessa operação, nos meses seguintes continuou a poluir o oceano com o que sobrou nos tanques. O efeito negativo do desastre foi tão grande que o colocou em primeiro na lista de catástrofes ibéricas.   

Por cá, temeram o pior. O estuário do rio Minho foi protegido com barreiras flutuantes, mas a poluição grave não atingiu as praias portuguesas. O governo contratou um navio de limpeza, que recolheu as manchas flutuantes que mais se aproximaram das nossas costa, mas o vento ajudou e afastou o perigo. Não veio o crude, mas as correntes marinhas com hidrocarbonetos do acidente contaminaram ligeiramente alguns organismos, como se verificou posteriormente. Chegaram cá, isso sim, muitas aves afectadas e, por meu intermédio, alguns voluntários ajudaram no centro de tratamento, improvisado em Esposende. 

Fomos ver os estragos, alguns dias depois do naufrágio. Percorremos toda a costa, desde a fronteira até ao cabo Finisterra, explorando estradas secundárias e municipais. Em várias delas assistimos ao espectáculo revoltante e triste com que começa esta memória. Tivesse ficado pelas imagens televisivas e  não seria tão marcante.

Uma década depois, o tribunal ilibou todos os responsáveis pela catástrofe… Mas as companhias de seguros tiveram de indemnizar o estado espanhol pelos danos e pelas despesas.

Em 1992, precisamente uma década antes do Prestige, uma maré negra  na Corunha tinha já causado enormes prejuízos. Depois do Prestige, os galegos disseram: “Nunca Mas!” A ver vamos.

prestige 2002 patola morto
Uma das muitas aves afectadas. CC0cc1Paulo Santos

Deixe um comentário