Não era uma azenha abandonada. Construção robusta, lages bem encaixadas umas nas outras, aparentava vários séculos de existência. De formato encurvado, interior vazio, atravessada por água entrando por abertura virada a montante e saindo por uma “porta” para jusante, a estrutura mostrava na face das pedras o desgaste e polimento de incontáveis cheias do rio. No açude em estranho padrão arquitectónico, ziguezagueando pelo rio de uma margem à outra, assentava essa construção no extremo de um agudo “V” apontando o sentido da nascente. Era o que os locais designavam por pesqueira.
Como o nome sugere, a falsa azenha servira, durante muitos anos, para capturar peixes do rio que tentavam ultrapassar o obstáculo constituído pelo açude. Não se sabe quantos anos terão passado até os antigos se terem apercebido das vantagens de acrescentar estruturas de pesca aos açudes, construídos para desviar a água de mover as azenhas. Primeiro terão sido as nassas, armadilhas cónicas mais simples, feitas de paus e rede, ainda hoje usadas na região. Só depois, certamente, se terão dado ao trabalho de construir e aperfeiçoar estruturas mais complexas e mais ou menos permanentes, em pedra. E quanto tempo terá decorrido até modificarem a forma do açude, com o intuito melhor conduzir os migradores para a armadilha? O certo é que são referidas pesqueiras em documentos medievais pelo menos desde o século quinze. Em território nacional houve outras pesqueiras em funcionamento, não só no Lima mas também no Cávado, no Ave e até no Guadiana, entre outros, pelo que se pode daí inferir alguma coisa sobre os bons resultados do sistema.
De onde vinha este sucesso? Do seu engenhoso arranjo interno. Quando em função, no interior da pesqueira, um eixo com quatro cestas girava continuamente com a força da água. Cada cesta, ao passar na água na parte de baixo da pesqueira, capturava os peixes que aí estivessem momentaneamente. E sim, entravam pela porta, atraídos pela corrente certa e ajustável por uma tábua que cobria parcialmente o orifício virado a montante. Quantos anos terão sido necessários até os antigos descobrirem o melhor caudal de chamada?
E do sistema engenhoso ainda não está tudo. Falta explicar que cada cesta, ao rodar para a posição superior, despejava o seu conteúdo, caso o tivesse, numa calha inclinada para um tanque, onde a captura aguardava vivinha que a fossem buscar. Admirável! Quando fomos estudá-las, já nenhuma funcionava. Mas ainda vimos restos das cestas metálicas e o respectivo eixo, abandonados no quintal da casa de um pescador.
Para completar o estudo, de iniciativa do então chefe do departamento João Machado Cruz, descemos o rio Lima num velho bote de borracha, pouco antes da construção da barragem de Touvedo, o que iria provocar a submersão da maioria das antigas pesqueiras e de cerca de três dezenas dos açudes do rio. Procedemos à contagem, mapeamento, fotografia e vídeo dos açudes e pesqueiras, registando ainda todos os boqueiros, encaixes de fixação de nassas, pois estas eram o principal método de pesca em funcionamento.
Devo confessar que a logística da operação foi difícil. Para além da morosidade do trabalho e da grande carga de equipamento necessário, sobrecarregando o bote semirígido, de borracha e pranchas de madeira. O elevado número de obstáculos a ultrapassar na descida do rio tornou a viagem fisicamente exigente. Para ultrapassar cada açude tínhamos de retirar o material de dentro do barco, descê-lo com ajuda de cabos por desníveis até 2 metros, voltar a carregar tudo, e continuar as tarefas. Ao final do dia jantava-se bem e dormia-se profundamente, o corpo bem amassado.
A barragem de Touvedo, em funcionamento desde 1993, formou uma albufeira que cobriu açudes e pesqueiras, em cerca de dez quilómetros de rio, reduzindo o ganha-pão de várias famílias de pescadores da região que dali obtinham bom rendimento, sobretudo na época da migração reprodutora da lampreia. Para dar uma ideia da importância económica da pesca e também da magnitude ecológica do fenómeno, refiro os registos informais de capturas, centenas por noite de faina, afirmando alguns lembrarem-se de ter chegado a 800. Rentável, claro, mas constituindo uma sobreexploração sem controle nem consciência, cujos efeitos a longo prazo se juntaram à redução de áreas de reprodução e à presença de outro método de captura, igualmente sem fiscalização eficaz e ainda mais destrutivo, a estacada. Esta, ainda hoje em uso na foz do rio, é um grande “funil” de rede estendido quase de uma margem à outra, e da qual pouco escapa.
Voltando à albufeira de Touvedo, e facto gravoso por não haver alternativa na região, ela reduziu consideravelmente o troço de rio onde as lampreias se podem reproduzir, ampliando os efeitos ecológicos negativos da muito maior barragem de Lindoso, que há muito tinha já cortado o afluxo desta espécie a Espanha e, por consequência, a todas as zonas de reprodução situadas na parte superior da bacia hidrográfica do Lima. Todas as espécies foram afectadas, grandes migradores como salmões, lampreias, trutas, sáveis e savelhas, mas também barbos, bogas e escalos. Claro que foi construído um sistema de redução dos impactos. Mas o elevador de peixes, levando-os ao engano para uma albufeira instável, e sendo difícil a orientação até aos pequenos afluentes com condições adequadas à desova e sobrevivência de larvas e juvenis, serve de pouco.
Touvedo não tem relevância em termos de produção de energia, mas foi considerada necessária para amortecer as violentas descargas da grande barragem de Lindoso, e assim evitar os efeitos negativos das sucessivas, frequentes e erosivas flutuações de caudal, perigosas para as povoações ribeirinhas situadas a jusante.
Para fechar esta memória falta referir que fizemos também uma deslocação a casa da barqueiro pescador, para analisar a cestas da pesqueira O velhote, dono de várias nassas que operava com ajuda de familiares, completava os ganhos com o que os aldeões lhe pagavam para os atravessar o rio. Principalmente os da margem direita, mais afastados de uma estrada digna desse nome… “Ó barqueiro!” chamavam batendo as palmas, e lá ia ele. Mas voltemos às cestas. Para as desenhar, conseguimos a boa vontade de um artista. Fernando Galhano era personagem curiosa, de discurso desempoeirado para os seus 80 anos, e tinha colocado o nome, com todo o mérito, nas capas de importantes publicações de etnografia. Eu tinha lido, em tempos, um livro sobre espigueiros (1) e os seus esquemas eram excelentes. E excelentes ficaram os das pesqueiras.
Durante vários dias descemos o rio. Começando na Central Hidroelétrico de Lindoso, passámos Britelo, Entre Ambos-os-Rios, Touvedo e Ponte da Barca. Trabalho feito, decidimos continuar até ao mar. Passámos Ribeira do Rio e Ponte de Lima. No último dia de aventura fomos até Bertiandos, o vento forte a soprar de oeste não nos deixou descer mais. Dessa vez.
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Dias, Jorge, Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano (1961), Sistemas primitivos de secagem e armazenagem de produtos agrícolas. Espigueiros portugueses. Centro de Estudos da Etnologia Peninsular: 291 páginas.