Um azul que nunca tinha visto. Um azul luminoso, à superfície, mas muito carregado, na zona profunda. Em redor, um manto claro, brilhante, quase branco, cobrindo tudo em forte contraste. Uma névoa muito ténue pairando, saindo devagar, como que avisando subtilmente do calor intenso contido no pequeno lago, enganadoramente da cor que é geralmente sinal de frio. Em volta, aromas sulfurosos indicadores de actividade vulcânica.
Mais adiante outro lago, mas fortemente fumegante, a água borbulhante em redemoinhos, desta vez não escondendo ser um caldeirão fervente, transbordando para o rio que serpenteia ao lado. Ligeiramente azul, o lago mostra ainda gradientes de laranja, vermelho, castanho, amarelo e ainda suaves tons de esmeralda em concêntricos padrões nos sedimentos junto às margens. São bactérias aí acumuladas, e exibem diferente coloração em zonas de diferente temperatura. Mais nada aí consegue sobreviver na água tão quente. Mais aromas sulfurosos.


Paulo SantosA alguma distância dali, outro fenómeno chama também a atenção. De um buraco no solo esbranquiçado soa forte resfolegar, como se ali se abrigasse um verme gigantesco e mal humorado, prestes a vir buscar a sua presa… Afinal, o que sai é um forte jacto de água, uma efémera coluna fervente que dura alguns segundos apenas. O geiser é apelidado de “Old Faithful”, o velho fiel, pela regularidade com que irrompe do solo, podendo subir cinquenta metros. Um espectáculo que merece bem a espera de hora e meia com que o actor se prepara para cada subida ao palco, actuando escassos minutos, apenas dois ou três em cada aparição. Outra vez aromas sulfurosos.
A poucos quilómetros, um prado sem fim, algumas árvores junto ao rio, manchas escuras em movimentos lentos, animais grandes, robustos, massivos. Bisontes a pastar com as montanhas ao fundo. Cenário fortemente emotivo, colocando-me dentro dos livros de banda desenhada que lera muitos anos antes. A memória dentro da memória, recuperando a imaginação juvenil a voar com as ilustrações de traço simples.
São memórias muito sensoriais das paisagens e ecossistemas fortemente impactantes do Parque Nacional de Yellowstone, um dos que desde sempre esperavam por uma oportunidade de desenlace na lista de sítios a visitar. A ocasião tinha finalmente chegado.
Voltando à viagem, lembro-me que percorremos as vias principais, acedemos aos pontos mais relevantes, vimos lagos coloridos, entre eles o icónico Prismático, vimos geisers e fumarolas, terraços de travertinos, florestas de coníferas, planícies repletas de animais, o grande Lago Yellowstone, as Montanhas Rochosas, tudo num enorme planalto a mais de 2000 metros de altitude. Estava frio.


Paulo SantosTivemos oportunidade de fazer boas observações, algumas extremamente perto, como quando uma família de bisontes vinha pachorrentamente pela estrada, os carros parados para eles passarem, um deles tão perto que até lhe fiz um retrato de perfil com a lente para fotografar paisagens. Tais encontros eram tão frequentes que havia sinalização móvel, colocada e ajustada pelos guardas: “Cuidado! Bisontes em frente”. Havia rangers sempre por perto, para gerir situações como a relatada acima, para impedir a paragem de viaturas em zonas proibidas, ou mesmo para dar informações, o que era um bom serviço prestado aos visitantes. Este serviço era de baixo custo, se atendermos ao preço de entrada pago por viatura, cerca de cinco dólares na altura. Um bom exemplo, nunca adoptado no nosso país…
Vimos também de perto veados, coiotes, esquilos e muitas aves. De mais longe um alce. À beira da estrada, em lugares próprios e com estacionamento autorizado, vários observadores procuravam animais menos confortáveis com a companhia de humanos. Num desses locais perguntei o que estavam a ver, pois nada localizava com os binóculos. “Sao lobos, querem ver?” Vimos. Depois de saber o ponto onde estavam, até se podiam observar de binóculos. Uns quilómetros adiante a cena repetiu-se, mas com carneiros das Montanhas Rochosas, empoleirados numa escarpa. E vimos mais espécies, das quais já não me lembro, mas não tivemos encontros com ursos. Não calhou.
O Parque Nacional de Yellowstone foi o primeiro do seu tipo a nível mundial, o modelo que cunhou o termo, e que vem sendo replicado desde 1872 por todo os continentes e oceanos. Contudo, os seus recursos minerais e as madeiras desde cedo começaram a ser removidos, e a concessão para a sua exploração quase foi levada a leilão. Interesses económicos predatórios sempre houve, e só uma campanha nos jornais o impediu, levando à criação do parque. Vale bem, ainda hoje, ler o seu documento fundador, nem que seja apenas um excerto: “As cabeceiras do rio Yellowstone […] ficam reservadas, livres de povoamento, ocupação ou venda […] e dedicadas e separadas como um parque público […] para o benefício e desfrute do povo.” Uma visão de futuro, como agora se diz.
A geologia dinâmica, os prados, a floresta, as montanhas, a fauna icónica, não faltava motivação para a viagem ao parque da “Pedra Amarela”. Fazê-la com a família assumiu relevância que não tiveram outras, feitas a solo, aproveitando deslocações internacionais de trabalho.


Paulo Santos