NO COMBOIO DE VIGO

Aos meus pés ia um grande saco com bananas verdes, mas não eram minhas. O guarda fiscal assumiu que o eram e nada perguntou. Eu nada disse. O mesmo sucedeu com mais três ou quatro ocupantes na carruagem. Estranho, mas foi mesmo assim. E, em muitas das viagens de regresso ao Porto, vindo de Vigo onde me deslocava frequentemente em trabalho, a cena repetiu-se. Ao passar a fronteira, entravam os guardas. Para além da documentação, verificavam ao acaso as bagagens de alguns passageiros, procurando quantidades excessivas de artigos sujeitos a contingentação, como tabaco, bebidas alcoólicas e… bananas. Cinco quilos desta mercadoria, dir-se-ia fruta proibida, era o que cada um podia introduzir no país, para consumo próprio, nunca para comercialização.

Nos anos 80 do século passado, as bananas eram mesmo caras. Monopólios na produção e impostos elevados sobre muitos produtos importados eram algumas das razões para esse elevado preço. Já em Espanha eram abundantes e baratas, devido a acordos comerciais favoráveis com países produtores da américa latina. Comprar lá era, por isso, bastante vantajoso. Mas, como já disse, as bananas não eram minhas.

Devo, então, explicar como tinham aparecido os sacos das ditas a meus pés, e espalhados pelo comboio. “O senhor importa-se que eu deixe aqui?” Assim perguntou uma mulher vestida pobremente, de avental e com um saco de bananas em cada mão. “Depois venho buscar”. A mesma pergunta a outro passageiro no banco do lado. Na primeira vez estranhei e nada disse, limitei-me a encolher os ombros e a apertar os lábios em sinal de estar a borrifar-me para o que se passava. Nas vezes seguintes já foi diferente: “Pode deixar.”

Depois da passagem dos agentes, as senhoras apareciam a recolher os sacos, umas agradecendo a colaboração, outras não. Verdadeiras contrabandistas, agiam com a condescendência e mesmo a conivência dos passageiros.

Poderemos ter julgamento apressado sobre este modo estranho de ganhar a vida, mas eram tempos nada fáceis, num país em constante crise económica e política, antes adesão ao mercado comum e antes de começar a receber as verbas de Bruxelas…

E não devia ser nada fácil. Como era possível escapar aos guardas, que deviam conhecer as manhas todas? E onde arrumavam os sacos depois da recolha? Ou será que andavam todos feitos, eles com elas? 

Será que recuperavam sempre a mercadoria? De vez em quando não apareceria algum espertalhão que recusasse devolver a fruta, ameaçando denunciar a marosca?

Uma vez um guarda perguntou mesmo a alguém: “O saco é seu?” Em consequência da resposta negativa, levou as bananas. Seria o guarda ranhoso?

A tantas perguntas sem saber dar resposta, junto uma dúvida. Fiquei sempre a pensar no que levariam elas para Espanha, aproveitando a viagem. Nunca descobri.

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