Poc! O passarinho caiu ao solo mesmo em frente aos meus pés. Imediatamente senti pena do bichinho frágil, muito mais intensa do que a satisfação infantil de ter pela primeira vez ter acertado num alvo.
Naquele tempo quase todos os miúdos tinham fisga, feita de um pau bifurcado, duas tiras de borracha aproveitada de uma câmara-de-ar furada, um pouco de cabedal onde se encaixavam os projécteis e cordel quanto bastasse para a montagem do conjunto.
Havia ases e nabos da fisga, um dos muitos factores que determinavam o prestígio de cada um. Alguns, os craques, até com um elástico nos dedos e pequenos pedaços de fio eléctrico de cobre dobrado em U acertavam onde queriam. Lembro-me bem de os ver a massacrar os rapazes mais fracos. Ou a matar morcegos pendurados a dormir nas grandes árvores. Estavam, sobretudo, nas mangueiras frondosas e na época das mangas maduras, das quais aquela espécie de pequenos mamíferos se alimenta.
Resignado à minha inépcia bélica, fazia as minhas fisgas pelo prazer simples de construir, e não para as usar.
Inépcia essa que se continuou, anos mais tarde, quando as espingardas a pressão-de-ar começaram a vulgarizar-se. Sempre que as experimentava era uma vergonha, um desconsolo. Mas os de pontaria certeira faziam razias na passarada, moda que felizmente acabou por desaparecer nos finais do século vinte, pelo menos em Portugal, o que constituiu um factor de recuperação de algumas aves.
Como não há regra sem excepção, lembro também a ocasião única em que até eu atingi o alvo com uma destas máquinas de destruição. Foi num dos acampamentos anuais que juntavam várias famílias amigas nos confins de Angola. Um dia, estava eu a experimentar uma pressão-de-ar emprestada que até tinha mira telescópica, e falhava repetidamente os tiros às cabaças e a outros objectos. Entretanto, apareceu um lagarto numa grande árvore ali em frente. Nunca tinha visto um grande lagarto a subir verticalmente um tronco, e aquele até tinha uma saliente “gola” alaranjada.
Sem pensar, apontei e disparei. Matei-o, confissão delicada da parte de quem passou as últimas décadas a fazer proselitismo ambiental.
Com o canivete, removi cuidadosamente a pele escamosa do réptil e guardei-a em sal grosso, determinado a fazer uma montagem em madeira quando chegasse a casa. De boas e más ideias estão céu e inferno cheios, tal como a cabeça dos adolescentes. De facto, a pele do malogrado lagarto chegou a casa mas, mal conservada, muito calor e a “ajuda” de agentes decompositores selaram o destino do meu projecto: “Se não deitas fora essa coisa malcheirosa, deito eu!” Pragmatismo de mãe.
Voltando ao início desta memória e à minha vítima alada e de coloridas penas, levantei-a do chão… Estando a matutar no que fazer, “ressuscitou-me” nas mãos. Afinal não tinha morrido. Deveria ter estado mais atento, e só então raciocinei… O som da pedra saída da fisga, ao bater no alvo, tinha produzido um ruído metálico… E fez-se luz. Eu tinha acertado no fio eléctrico onde o passarinho estivera pousado. O choque e a vibração súbita fizeram a pequena ave desmaiar. Abri as mãos e deixei-a voar.
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