A humidade satura o ar e, apesar da altitude e do vento fresco, sentia na cara o calor da caminhada. Tinha chuviscado, vegetação e solo completamente encharcados. De cada vez que olho para cima na tentativa de localizar as aves que ouço piar, ou que o guia vê e me indica, o vapor que se liberta da pele condensa-se nos óculos e tolda-me a visão. Muito irritante, e não consigo fazer nada para o evitar. Inclino a cabeça de modo a que as lentes fiquem viradas para baixo e espero alguns segundos até que desembaciem. Não adianta limpá-las ‘pois o fenómeno repete-se vezes sem conta.
O Parque Natural Ôbo é uma área protegida que vale a pena percorrer a pé e ali estava eu, acompanhado pelo guia apalavrado na véspera. Tínhamos combinado fazer uma caminhada para observação de aves, sobretudo para tentar fotografar algumas delas, tão raras que não existem em mais nenhum lugar no planeta.
O topo do grande vulcão, o Pico de São Tomé, condensa tanta água que favorece a existência da floresta equatorial húmida. Apresenta ainda neste início do século 21 uma biodiversidade notável e cuja sobrevivência se deve à baixa densidade populacional, à altitude, à dificuldade de acesso e à pouca facilidade em cultivar os terrenos. Fosse de outra forma e já pouco restaria, depois de quinhentos anos de colonização humana.
O percurso teve início, manhã cedo, a partir do Jardim Botânico do Bom Sucesso, instalação simples mas muito informativa, e que tínhamos visitado dias antes. Como de costume, claro que ia carregado com duas máquinas fotográficas e várias lentes, incluindo a teleobjectiva de 500 mm e o respectivo e pesado tripé. Passámos por algumas lavras e entrámos no espaço florestal onde começámos a ver e ouvir os alvos do safari fotográfico. Como poderão imaginar, o sucesso da operação ficou aquém das expectativas, uma parte importante da avifauna passou-me completamente ao lado, vultos indistintos do outro lado das lentes tornadas disfuncionais. Contudo, prefiro recordar o que consegui observar e registar e não o que escapou à visualização. Sim, vi algumas aves que nunca tinha visto e algumas das fotografias que lhes fiz ficaram bem, e isso é o que importa. É um facto que não cheguei a ver as aves endémicas de São Tomé mais raras e ameaçadas de extinção como o anjolô, o picanço-de-são-tomé ou a galinhola. Mas tive boas observações de papa-moscas de São Tomé, alguns machos e uma fêmea, tão diferentes que nem parecem da mesma espécie, vi o beija-flor-gigante, o tordo de São Tomé, e o verdíssimo cuco-esmeraldino, entre outras.
Aumentei assim a lista de aves observadas na ilha pois tinha já visto, ao nível do mar, muitas aves diferentes, a garça-dos-recifes de tons azulados, a viúva-dominicana de cauda muito muito longa, os tecelões amarelo-brilhante, as rolas-dos-palmares muito discretas, os pescadores corvos-marinhos-africanos, o robusto bronze munia, o nervoso olho-branco de São Tomé, os omnipresentes milhafres-pretos e as garças-boieiras, estas duas espécies exactamente as mesmas que podemos ver na Europa. E vi muitas outras aves das quais não me recordo, ou porque não consegui identificá-las no momento, ou porque delas não guardei registo.
Também o passeio de alguns quilómetros no meio daquela floresta tão diferente, por vezes bastante cerrada, constituíu, por si só, um prazer considerável. Tantas árvores diferentes, os arbustos, as trepadeiras pendentes em cortina, tantas flores estranhas e belas, os fetos, os musgos no solo ou cobrindo os troncos em decomposição. E no meio da vegetação, para além das já mencionadas aves, vi caracóis, lesmas, aranhas e muitos insectos que nunca tinha observado, sinais de um ecossistema rico, distinto, funcional, e merecedor de efectiva protecção. Esta é absolutamente necessária face à crescente densidade populacional nas zonas envolventes e em relação a uma pressão de desenvolvimento económico de cariz predatório, cada vez mais apoiado em tecnologias que reduzem os obstáculos acima mencionados, altitude, maus acessos e agricultura difícil. O Parque Natural Ôbo merece ajuda por parte da comunidade internacional, mas este apoio pouca utilidade terá se os santomenses não fizerem parte da solução.


Papa-moscas de São Tomé (Terpsiphone atrochalybeia), fêmea à esquerda e macho abaixo.
Paulo Santos