EMBARAÇO INFORMÁTICO

A minha cara ferve, rubor intenso. Carrego repetidamente na tecla ESC, sem resultado, e o rato não dá para fechar as imagens que rápida e sucessivamente vão povoando o monitor, sempre mais, cobrindo as anteriores. As duas professoras sentadas a meu lado, já entradotas, incomodadas, desviam o olhar daquelas fotografias dignas das mais populares “revistas para homens”. Eu, atrapalhado, gaguejo desculpas antes de me lembrar que é melhor desligar o computador.

No final dos anos 90 do século passado, a utilização de motores de busca não era um coisa comum. Eram usados sobretudo em meio académico. Na viragem do século, começou a destacar-se pelos bons resultados o Google, ultrapassando outros como o Netscape ou o Altavista. A sua aplicação no dia-a-dia generalizou-se e a fama chegou mesmo aos jornais diários e semanários.

Um dia, recebi uma chamada telefónica de uma escola do ensino secundário a pedir ajuda. Tinham lido algures um artigo sobre a utilidade deste novo instrumento de trabalho que era o Google, e queriam aprender como usá-lo para inovar no modo de se relacionar com os alunos. Não me conheciam, mas sabiam através de colegas da escola que tinham frequentado as minhas acções de formação e actualização, que eu ajudava com frequência quem me aparecia. E sem o nariz empinado que era habitualmente associado aos académicos.

No dia marcado, chegaram as duas professoras à Faculdade e  expliquei de modo muito simples quais as vantagens dos motores de busca. Disse-lhes ainda que tipos de informação poderiam obter com facilidade para os projectos na escola. Depois fui fazer a demonstração no computador, mas enganei-me e escrevi goggle, com duplo g em vez de duplo o… E, grande azar, sucedeu o que acima relatei. Tentei explicar ter sido um erro de digitação a levar-nos até uma página nada recomendável, de alguém que se aproveitava da popularidade do Google… Foram embora sem esperar que eu reiniciasse o computador, dizendo não valer a pena. Involuntáriamente, devo ter vacinado aquelas senhoras contra a informática para o resto das suas vidas, e não faço a mínima ideia sobre o terão ficado a pensar de mim. Ou talvez faça…

Hoje, o goggle com duplo g já não funciona. Verdade, não precisam de ir experimentar. A Google, que se transformou no gigante tecnológico que todos conhecem, deve ter pago uma fortuna para comprar todos os domínios com palavras parecidas, enriquecendo os espertalhões que previram a tempo o que iria acontecer.

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