Finalmente uma visita de estudo a um parque estrangeiro! Ambicionada há muito, conseguiu-se reunir um grupo de associados e amigos da Natureza para uma aventura de quatro dias no parque mais antigo de Espanha.
No primeiro dia, saímos do Porto com o tradicional atraso. Bastantes horas depois, estávamos em León. A partir daí, a viagem tomou outro interêsse. Com efeito, a cada torre, de igreja ou não, correspondia um ninho. Começou então a ouvir-se “olha ali uma, olha outra!”; eram as cegonhas nos campos, à beira da estrada, nos ninhos ou a voar. A certa altura contou-se um bando de 26! (**) Mas não eram só as cegonhas. No percurso até Riaño, perdemos a conta aos milhafres, vimos algumas águias de asa redonda e uma real. De uma bomba de gasolina, enquanto a camioneta reabastecia, observámos também um par de grifos. Esta abertura de programa foi consoladora mas remeteu alguns de nós a tristes pensamentos sobre a realidade da má protecção e até perseguição a estes animais na nossa terra. Adiante que foi dia de festa e até se cantou o malhão e o fado, para espantar os males e não só. Ao fim da tarde parámos no “mirador de piedrashitas” para desentorpecer as pernas e gozar a primeira grande panorâmica dos picos nevados. As máquinas fotográficas pareciam metralhadoras. Descemos então para o vale e acampámos no pátio da escola, após devida autorização do professor e cura da aldeia.
O segundo dia começou cedo para nós. Depois de saborear o nascer do sol, desmontámos as tendas e fomos para Posada de Valdeon. Após o café, encetámos uma longa caminhada pelo vale do rio Cares. A primeira metade, até Caín, levou-nos por um vale verde, ladeado de picos em forma de dentes de serra. Flores coloridas e árvores com abundância por todo o lado. Carvalho, Faia e Tília eram as mais abundantes. Passámos por uma tradicional armadilha para lobos, evidentemente fora de uso, mas perfeitamente conservada como património cultural. De Caín para baixo a paisagem muda radicalmente. O rio corre numa profunda garganta, cujas paredes a pique distam de apenas alguns metros. O caminho foi escavado na escarpa, numa notável obra de esforço humano. Mais para diante as margens afastam-se um pouco e mostram-se cobertas de vegetação, com árvores retorcidas encaixadas em qualquer frincha. Lindas cascatas saltam do verde para o abismo. Na parte final, os montes são mais áridos e o caminho sobe durante uns quilómetros, exigindo um esforço extra antes da descida para Ponte Poncebos. Reunidos os caminhantes, dirigimo-nos aos lagos de Covadonga. No trajecto, uma forte tempestade fez-nos recear não ter condições para acampar mas, quando chegámos ao lago Ercina, o céu estava limpo, com um bonito pôr-do-sol. Na zona relvada, encharcada e com grandes “sementes” de vaca, escolhemos o melhor sítio para montar as tendas e fazer o jantar.


Paulo SantosDepois de uma noite estrelada, levantámo-nos antes do sol e, em grupos, espalhámo-nos pela região, subindo aos montes, atravessando a floresta de faias e observando as aves do lago. Gralhas de bico amarelo, grifos e outras, fizeram as honras da casa. Ao fim da manhã, descemos pelo apinhado santuário de Covadonga e visitámos Cangas de Onis. De tarde, viajámos (com nova tempestade) até Potes, passando pelo notável desfiladeiro da Hermida. Subimos depois até Fuente Dé, onde inesperada e espectacular paisagem se nos deparou. Subindo no teleférico, demos por bem empregues as 600 pesetas ao ver o horizonte expandido ao infinito. Por todo o lado manchas de neve convidavam a batalhar amigavelmente ou a escorregar encosta abaixo. Descemos no último “metro” e fomos para o parque de campismo.
O último dia começou com o céu bem azul. Desmontado o acampamento, fomos para Potes onde foi o assalto ás lojas abertas. Eram os queijos, o artesanato, os mapas e até cidra. A viagem até Riaño foi agradável, com paisagem diferente e, daí para baixo, já nossa conhecida. Chegámos ao Porto com a sensação de ter valido a pena e que a zona merecia nova visita, com mais calma, a um ou outro local particular que mais tivesse agradado. O convívio foi muito bom e reuniu pessoas até do Alentejo (olá Estremoz!). Ficámos com vontade de repetir o feito, quem sabe se da próxima ao Coto Doñana, paraíso da fauna Ibérica. Até lá, então.
NOTAS
(*) Escrito em 1988, este texto mostra pouca experiência e uma visão do mundo muito reduzida. Foi publicado no jornal da Associação Quercus e descreve uma viagem organizada por mim. O então director do jornal fez o favor de me enviar, recentemente, uma cópia do texto original.
(**) Como pode deduzir-se, em 1988 as cegonhas não eram abundantes em Portugal.


Paulo Santos