ARCO-ÍRIS VOADOR

Eram tantos à nossa volta, e estavam ali tão perto! Quase lhes chegava com a mão. Fiz dezenas de fotografias, sabendo de antemão que a maioria delas ficaria mal, tremidas, desfocadas, desenquadradas. Mas sentia na minha cara aquele sorriso babado e feliz por estar ali a assistir a tão belo espectáculo da natureza.

Já tinha visto colibris no Museu de Zoologia(1), essa famosa “Colecção Braga Júnior”, mas empalhadamente tristes. Também tinha visto dois exemplares num parque na Califórnia, mas de longe, e foi coisa de dois ou três segundos. Em Angola vira aves semelhantes, os beija-flor, mas maiores e de um cromatismo menos impressionante. Desta vez eram mesmo os verdadeiros, com os seus rapidíssimos batimentos de asas em movimentos elegantes, avançando e recuando, pairando ou então desaparecendo quase instantâneamente em brilhantes raios de luz. E zumbindo! Mais uma maravilha da natureza que tínhamos o privilégio de observar em família.

Na região de Monteverde, percorremos centenas de quilómetros em estradas terciárias, e até por caminhos rurais, alguns em “todo-o-terreno” muito difícil, obtendo uma percepção  bastante completa do ecossistema e das explorações agrícolas e pecuárias, boas observações da floresta tropical, das conspícuas aves e até de mamíferos. E sem conseguir ver o cume do grande vulcão, apesar de lhe termos dado a volta completa ao longo de três ou quatro dias, sempre escondido no seu manto espesso de nuvens que diariamente se esvaíam cá para baixo.

Com um nome que lhe vai mais que bem, a “Reserva Biológica Bosque Nuboso Monteverde”, na Costa Rica, é um lugar de destaque neste país que se caracteriza pela sua riquíssima biodiversidade, das mais importantes a nível mundial. Por essa razão, está bem preparada para receber os visitantes de todo o mundo que vão à procura da flora e da fauna. Assim, um pouco por todo o lado, há infraestruturas de fruição e observação do património natural. Desde os percursos operados dia e noite por uma cooperativa de guias autorizados até mini-zoológicos só com rãs, ou só com morcegos, ou borboletas, o difícil é  escolher. Fizemos em família um pouco de tudo. E um dos pontos a não perder é precisamente o Centro Científico Tropical, onde se estudam os colibris. Foi aí que os pudemos observar, horas sem cansar. Chegavam continuamente da floresta, em busca de água açucarada colocada em bebedouros apropriados, sem mostrar medo dos observadores ali tão perto, nem de uma ou outra criança que guinchava de admiração, nem dos fotógrafos amadores ou profissionais que metralhavam as suas máquinas.

Mas não se pense que só se viam aí. Na realidade, podiam ver-se um pouco por todo o lado, se bem que não tão próximo. Mesmo na capital, no jardim da universidade, pude observar demoradamente uma mãe colibri a dar alimento a uma cria acastanhada, ainda com plumagem dos primeiros dias fora do ninho.

Sim, é verdade que muitas fotografias que fiz naquele dia memorável ficaram mal, ou tremidas, ou desfocadas, ou desenquadradas. A rapidez estonteante dos “modelos” fazia com que ao carregar no botão da câmara eles já não estavam na mesma posição… Por essa razão, fiquei com uma colecção de imagens só com asas, ou bicos, ou caudas. Mas algumas saíram bem, mostrando a penugem fantástica destas pequenas aves, numa combinação de reflexão e refracção da luz tão especial que resulta em cores iridescentes belíssimas.

  1. Integrado no actual Museu de História Natural da Universidade do Porto.

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Colibri. CC0cc1Paulo Santos

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