PULMÃO VERDE

Sentia-me completamente isolado no meio da floresta. Caminhava na sombra das grandes árvores, pouca luz atravessava a espessa camada de folhas. Estava quente, daquele calor húmido típico da região, e a passarada cantava um repertório desconhecido para mim enquanto saltava de ramo em ramo. Solo enlameado, cheiro ácido a matéria orgânica, a marca bem visível um metro acima da minha cabeça, mas só em alguns troncos mais claros e lisos, tudo mostrava que o nível da água tinha baixado consideravelmente, não há muito tempo. Era o início da estação mais seca na Floresta Amazónica, um complexo ecossistema que há muito queria que fizesse parte das minhas experiências de vida, e finalmente ali estava, um objectivo a atingir na lista de qualquer biólogo dado às ecologias. Observando tudo o que podia, sentia-me quase eufórico, mas com uma certa frustração por não conseguir fotografar nem as aves nem os pequenos primatas que me tinham olhado lá do alto. O forte contraluz deixou-me apenas registar vultos escuros recortados no céu brilhante. O sossego durou apenas alguns minutos, outros turistas chegaram e não paravam de falar. Afinal, o Parque do Janauari é uma

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Samauma gigante (Ceiba pentandra). CC0cc1Paulo Santos

área protegida situada nas imediações de Manaus, bastante popular por ser de fácil e rápido acesso por barcos turísticos e por se encontrar em razoável estado de conservação. Daí o movimento, e muitos chegavam para ver uma planta famosa pelas suas folhas, que podem ultrapassar dois metros de diâmetro. Eram marcantes as ilustrações que desde miúdo admirava e que as mostravam flutuando, com uma criança sentada em cima. Para a ciência, as vitórias-régias foram baptizadas de Victoria amazonica em homenagem à rainha Vitória da Inglaterra. Foi um naturalista inglês, obviamente, que as viu na Guiana, a inglesa, claro, situada a norte do Brasil, e que trouxe as suas sementes para a Europa. O que não se vê nas simpáticas imagens são os grandes e aguçados espinhos que abundam na face inferior das folhas, e que aparentam ser eficazes contra peixes herbívoros. Mas quem estivesse atento veria a grande diversidade de seres vivos em redor. Para além das já mencionadas grandes árvores, com destaque para a gigante samauma, outras mais pequenas, as vitórias-régias, as muitas aves e os macacos, vi ainda jacarés de vários tamanhos, grandes lagartos, tartarugas, peixes variados, vistosas borboletas e outros insectos que enchiam o ar.

Ali bem perto, outro fenómeno de grandes dimensões causava admiração aos viajantes. O rio Negro, de água mais quente e escurecida pelos ácidos provenientes da decomposição da vegetação, e o rio Solimões, com água mais fria e amarelada, muito turva dos sedimentos que transporta desde os Andes, correm lado a lado sem se misturar, por vários quilómetros. É o chamado Encontro das Águas, em que as duas massas líquidas com densidade e temperatura distintas obedecem às leis da física, acabando depois por se misturar e formar o majestoso trecho inferior do rio Amazonas.
De regresso a Manaus, que me decepcionou pelo estado degradado, desorganizado e sujo, visitei o INPA, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia, e aí fiquei bem impressionado com os trabalhos em curso. Nas suas instalações tive também oportunidade de ver um tanque com pachorrentos manatins, peixes-bois como são compreensivelmente conhecidos, e aquários com pequenos peixes-eléctricos, e com famoso o pirarucu, o peixe gigante do Amazonas. Mais tarde, voltei a ver exemplares desta espécie no principal mercado do peixe da cidade. Este é o sítio certo para tomar consciência da enorme biodiversidade do rio, pois perdi-me na contagem de peixes diferentes, e já ia em mais de meia centena…

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Pirarucu (Arapaima gigasCC0cc1Paulo Santos

Na região não abundam as estradas e o rio tem influência em tudo. Não admira, portanto, que aos cais e pontões na margem acorram milhares de embarcações de todos os tamanhos, desde pirogas a porta-contentores, mas os mais características são os barcos muito coloridos, equivalentes aos nossos autocarros, transportando um formigueiro de gente que entra e sai da cidade. Claro que me juntei ao movimento e fiz viagens de barco em três dias consecutivos, pois é a melhor maneira de chegar aos pontos de interesse. Quer para ver a natureza riquíssima, ou aspectos da cultura dos índios, visitando os povoamentos receptivos, quer mesmo para experimentar a culinária local nos típicos restaurantes flutuantes. Num deles podíamos pescar e comer piranhas. Outro era uma plataforma de observação dos famosos botos, os golfinhos rosados do rio. Um catraio dava-lhes peixe a horas certas, assegurando que apareciam mesmo, e que até nadavam entre quem estivesse na água. Fiz tudo isso e adorei.
Durante muitos anos a Amazónia foi conhecida como o pulmão do planeta, e essa designação tem sido muito útil, não só na criação de um laço afectivo mas também na criação da consciência de uma relação causa-efeito-necessidade que têm contribuído para manter a Opinião Pública desfavorável à grande quantidade de agressões de que esta floresta tem sido alvo. Só no final do século 20 é que essa ideia inspiradora veio a ser desmontada, quando se conseguiu verificar que a contribuição das microalgas oceânicas para a produção de oxigénio e captação de dióxido de carbono é muito maior, mas a imagem poética do pulmão verde ficará para sempre.

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As vitórias-régias (Victoria amazonica) no Parque do Janauari. CC0cc1Paulo Santos

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