MÚSICA

O japonês, todo molhado, abriga-nos com o seu guarda-chuva enquanto os Anjos me empurram na cadeira de rodas, ziguezagueando por entre milhares de pessoas em direcção à rua. Ainda nos indicou o melhor sítio para apanhar um táxi, mandou parar um e ajudou a dobrar a cadeira e arrumá-la na viatura. À saída do  Budokan de Tóquio, a chuva surpreendeu-nos. Não fora aquela pessoa impressionada com a nossa dificuldade, também teríamos ficado encharcados e chegado tardíssimo ao hotel. Tínhamos acabado de assistir a um grande concerto do Eric Clapton e sua banda.

Desde cedo que a música faz parte da minha vida. Ainda criança, lembro a mãe sempre a cantarolar. E o pai gostava de tenores como Mario Lanza e Beniamino Gigli, que imitava com voz de opereta, normalmente a pedido dos amigos em festas e só depois de bem alegrado. O gira-discos Philips, peça preciosa lá em casa, funcionava aos fins de semana, repetindo a curta colecção de discos, alguns tão antigos que ainda tocavam a 78 rotações por minuto. Para além de cantores líricos, nos vinis do pai predominava a música clássica, admirador que era de Mozart e de Brahms, e tinha até a Toy Symphony que punha a tocar para nós. Havia ainda sessões familiares com cantoria acompanhada ao acordeão, tocado por um primo. Era o único músico da família, e tocava vários instrumentos. Tangos e canções populares, uma animação.

Ainda miúdo, tive a sorte de ouvir várias vezes afinadíssimos e melodiosos coros africanos, complexos e com raízes antigas, sem instrumentos de suporte.

Por volta dos 11 ou 12 anos o “canto coral” era disciplina obrigatória na minha escola. Eu, desafinado, fui mandado para a última fila, e com ordem para cantar baixinho, o que algumas vezes me esquecia, arruinando a harmonia e recebendo a evitável reprimenda.

Durante a juventude, ainda em Angola, havia sessões informais em que apareciam guitarras. Cantavam-se fados, música brasileira e espanhola, poucos sabiam inglês. Por vezes aparecia alguma canção com entrelinhas, mas era raro e só em círculos de confiança, para evitar dissabores com as autoridades. Nessa época era comum a organização de festas para tudo e mais alguma coisa, e a rapaziada fazia torneios desportivos. Nestes, fiquei várias vezes encarregado da instalação sonora, necessária para anunciar desde os patrocínios até às rifas, tudo o que fosse necessário e, claro, a música de suporte que eu escolhia. Alguns colegas de liceu compilavam as canções da moda e circulavam de mão em mão os cadernos com as letras. Na rádio passavam sobretudo cantores portugueses, Simone, Tony de Matos, Fernando Tordo, Amália, Tonicha, Frei Hermano da Câmara, Paco Bandeira e outros que agora não me lembro, mas também angolanos, Duo Ouro Negro, os Jovens do Prenda, Bonga, os brasileiros, Roberto Carlos, Nelson Ned, Vinícius, Chico Buarque, alguma música italiana, Gianni Morandi, Adriano Celentano ou Gigliola Cinquetti, e francesa, Charles Aznavour, Adamo, Brell, e avançava a vaga dominadora de música anglo-saxónica com Beatles, Creedence, Carpenters, Shirley Bassey, Ike e Tina Turner, Paul Simon, Roberta Flack, Neil Diamond e também Santana, entre muitos outros.

Com a vida espartana que se seguiu à vinda para a Europa, também o simples acto de escutar música se reduziu, as condições não eram propícias. Contudo, dois anos passados, as alterações familiares deixaram por minha conta as águas furtadas onde vivíamos. O local, alugado a uma viúva aflita,  deixou de ser o espaço exíguo onde uma família se acotovelava e passou a ser meu sótão, o local onde eu descansava, estudava, lia e ouvia a minha música. Madrugada adentro, escutava na rádio programas dedicados a vários géneros musicais e data dessa altura a aprendizagem sobre jazz, rock sinfónico e rock progressivo. Tinha uma velha aparelhagem com prato, rádio e gravador de cassetes que usava para coleccionar os sons preferidos e ouvir depois. O aparelho tinha também a capacidade de gravar e reproduzir os chamados cartuchos (cartridge tapes) que não vingaram no circuito comercial europeu, ultrapassados pelas cassetes compactas, mais práticas. Comprei duas fichas de auscultador que soldei a um fio duplo e usava este cabo para gravar da televisão. Não só as aulas do denominado “ano propedêutico” mas também música. Não havia fundos para comprar discos nem para ir a espectáculos ao vivo. Excepções a esta norma foram duas idas ao festival de jazz de Cascais e a outro em Vila Real, dos quais não guardo grandes memórias para além da música distorcida. Essas experiências afastaram-me de espectáculos ao vivo durante muitos anos.

No final da década de 70 não comprei música, com uma excepção. Andei meses a poupar para comprar um LP duplo  à venda em segunda mão no alfarrabista da Rua Formosa, já tinha a capa amarela de tanto tempo esperar por mim, exposto na montra: o Concerto de Colónia. Quando comecei a trabalhar, no terceiro ano da faculdade, comecei a comprar alguns discos, os LPs da música que mais me marcava na época, o início de uma bela coleção. Segundo os meus amigos, tinha gostos esquisitos: Keith Jarrett, Tangerine Dream, Moody Blues, Deodato, Camel, Vangelis, Brubeck, Miles, Renaissance ou o Jon Lord dos Deep Purple a brincar com orquestras sinfónicas, entre outros. Mais consensuais, o Santana e alguma música clássica. Alguns já foram comprados em conjunto e também aconteceram surpresas muito agradáveis quando a cara metade comprou discos desconhecidos que se revelaram autênticas preciosidades, o “Love over Gold” e o “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls” por exemplo.

Depois veio a era do CD e, para além de algumas coisas novas, aproveitei a reedição de música passada para completar a colecção. Juntei álbuns que não tinha comprado antes, como dos Pink Floyd, Clapton, Creedence, Dexter Gordon, Pat Metheny, B.B.King e tantos outros dos quais ou não tinha nada, ou tinha apenas um disco ou cassetes gravadas do rádio.

Com a vulgarização dos gravadores de CD passou a ser possível duplicar os discos comprados ou emprestados e fazer compilações, o que que contribuiu  imenso para a ampliação das colecções pessoais e encher os discos duros dos computadores com as músicas preferidas. Para onde fosse levava sempre no carro uma bolsa com CDs gravados, uma libertação das estações de rádio com selecções mais que duvidosas para o meu gosto, tal como milhões de outros em grande parte do mundo. A multiplicação de páginas na internet com ficheiros legais e ilegais de música, principalmente a partir da invenção do formato comprimido MP3, deu tal impulso à partilha que reduziu as vendas. Apesar dos muitos milhões de pessoas a ouvir cada vez mais música, as editoras anunciaram o fim dos lucros enormes com a indústria fonográfica e esta tendência aumentou com o aparecimento de rádios com emissão na internet. Hoje, o que é amplamente usado por quem gosta de ouvir a sua música preferida ou descobrir novos sons são as plataformas de streaming. Com esta tecnologia, associada  a forte redução de custos do uso de dados, é desnecessário ocupar memória física. Uso duas delas em todos os aparelhos com acesso às redes informáticas e deixei no armário todos os outros suportes de música.

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O austero Budokan… CC0cc1Paulo Santos

Finalmente, algumas palavras sobre concertos ao vivo. Foi só na meia idade que os retomei. Já não tinha que optar entre um espectáculo efémero e uma gravação que podia ouvir repetidamente e com melhor qualidade. Por isso, tivemos oportunidade de ir a concertos de muitos grupos preferidos, no país e pelo mundo fora, e assim regressamos ao início desta memória.

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… o mítico Blue Note… CC0cc1Paulo Santos
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… e o clássico Royal Albert Hall. CC0cc1Paulo Santos

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