GOLFINHOS DE POTÊNCIA

O ambiente é abafado, muito barulhento e mal-cheiroso, quase insuportável. O espaço é apertado e tem entranhado o rasto de mil peúgas e dos respectivos donos, transpirados do trabalho duro. Difícil de imaginar como é possível descansar nestas condições, mas este é um pensamento de quem não está habituado a estas lides. Estou a ver-me deitado no beliche dos marinheiros, no bojo de uma traineira, paredes meias com o motor diesel de muitos cavalos.

Estando nós em pleno oceano, não seria mais adequado dizer que o motor tem “X” golfinhos de potência? Enfim, a cena passou-se da primeira e última vez que fui à pesca da sardinha. Tínhamos saído há já algumas horas da doca de Leixões, Matosinhos. Era janeiro de 1983 e o vento gelado cortava as orelhas. Enquanto o mestre continuava à procura de sinais do paradeiro do seu sustento, tinha sugerido que eu fosse descansar, e disse que mandaria chamar-me quando houvesse novidades. Mais valia ter recusado mas, se o tivesse feito, a experiência teria sido incompleta e a introdução a esta memória muito menos sensorial.

Tinha conseguido o favor de estar a bordo através do senhorio que me alugava o quarto onde dormia, na Foz Velha do Porto, durante o último ano de faculdade. Era primo do mestre e o tema da pesca e as polémicas geradas por esta actividade, exercida muitas vezes à margem dos regulamentos, tinha vindo à conversa a propósito de uma notícia de mais uma apreensão de redes ilegais. Que não, o primo era sério! Se eu quisesse testemunhar… Eu quis,  e assim se combinou mais uma aventura. No dia marcado apresentei-me na cancela da doca, camisa quente de flanela como os pescadores, para não destoar, um anorak velho para sujar, e máquina fotográfica para registar.

Noite adiantada, a sonda deu sinal e lá me destinaram um ponto de observação, arrumadinho para não estorvar. A chalandra (bote auxiliar) foi largada com a ponta da rede e a traineira fez o cerco ao cardume, começando depois a esticar a retenida, o cabo que passa pelo fundo da rede e a transforma numa “cesta” de grandes dimensões, impedindo os peixes de fugirem para baixo. Captei algumas imagens até descobrir, azelhice, que não tinha mudado as pilhas ao flash.

No meio da azáfama, a algazarra dos pescadores anunciou visitante assíduos. Eram golfinhos. Vinham comer as presas fáceis, sardinhas que saíam da rede, atordoadas, asfixiadas, esmagadas pela compressão do cardume, cada vez mais concentrado à medida que o cerco ia apertando. A recolha ou alagem ia reduzindo o diâmetro da “cesta”, passando das centenas de metros para menos de uma dezena.

Nessa noite foram feitos dois lanços, enchendo as caixas de armazenamento do pescado, e o regresso a Leixões foi de madrugada. Já com a luz do dia foi feita a descarga para o cais, à força de braços, e os cabazes cheios de sardinhas foram encaminhados para a lota ali ao lado, local onde tudo iria ser registado e leiloado.

Nessa época desembarcavam-se em Portugal entre 80 mil e 100 mil  toneladas de sardinhas por ano, e em 2018 apenas um décimo desse valor, uma indicação clara dos problemas ecológicos e de má gestão que há muito afectam este recurso. Tais factos não impedem muitos, desde pescadores a políticos e governantes, de dizerem que se deve pescar mais e fazer mais barcos de pesca… Quanta ignorância e continuação de má gestão!

A sardinha já foi o mais importante recurso nas nossas pescas, alimentando a população mais pobre, movimentando a indústria e criando muitos postos de trabalho. Hoje está reduzida a uma parte com significado pouco mais que simbólico, nas festas dos santos populares, sendo a maioria dos restaurantes e a indústria conserveira abastecidos ao longo do ano com importações desta espécie.

Uma última palavra para os pescadores.  Dessa vez não vi nada de irregular, mas o certo é que todos os anos continuam a ser detectadas muitas infracções na exploração dos recursos pesqueiros. Por outro lado, os pescadores assalariados continuam a ser o elo mais fraco nesta actividade, auferindo rendimentos muito baixos, ao mesmo tempo que o pescado é transaccionado a valores irrisórios face ao que o consumidor final paga. Não é justo.

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