ESCARAVELHOS

Tantos escaravelhos! Uns bonitos, outros nem por isso. E de tantos tamanhos, uns minúsculos outros do tamanho de um punho fechado, e outros descomunais. E as cores?  Na sua maioria eram de cor negra, mas havia os azuis, os verdes, os amarelos, os dourados… Não, não estava a sonhar, nem numa floresta tropical no tempo de reprodução destes robustos bicharocos. Nem sequer estavam vivos, nem conservados na colecção de um entomólogo. Eram esculturas nos mais diversos materiais, arenito, madeira, metais, cristal de rocha, ou então feitos de cerâmica…

Na primeira visita ao Museu do Louvre, em Paris, não foi a Mona Lisa do grande Leonardo, cercada de uma barreira de japoneses, nem a enorme colecção de pintura de todas as épocas e escolas, algumas difíceis de ver de tão escuras que eram, não foram os painéis de pedra fracturada vindos de templos antigos do Médio Oriente, nem foram as perfeitas e nuas esculturas gregas de mármore alvo ou os estranhos bronzes dos século s19 e 20. O que mais me agradou e impressionou profundamente foi a memória da cultura do antigo Egipto. Estava representada no museu pelos incontornáveis sarcófagos e as respectivas múmias, um conjunto de objectos de grande sofisticação e decoração muito elaborada, superando tudo o que tinha acumulado no imaginário com as leituras juvenis sobre o assunto. Acrescentara ao longo dos anos leituras diversas, complementos à informação que constava no manual de história, que tinha a origem do meu fascínio pelo Egipto antigo. Pelas pirâmides com maldições e mistérios associados e também pelas outras grandes construções, e ainda por tudo o que eles já faziam e sabiam. Voltando ao Louvre, as colecções egípcias não tinham superado as expectativas pela novidade, pois conhecia imagens e esquemas de muito do que ali estava exposto. Tinham-nas superado, e muito, mas pela emoção da proximidade. Finalmente estava na presença dos objectos reais, não as suas imagens, a agradável sensação de os ver, milhares de anos depois de terem sido feitos. E esta cultura antiga estava representada também por objectos mais simples, como os escaravelhos acima mencionados, mas também um sem-número de peças rituais ou do dia a dia, de poderosos e de escravos, de escribas ou artesãos, de sacerdotes ou soldados. Eram objectos decorativos, adornos e jóias, representações de pessoas e animais, louças e recipientes de muitas formas e cores, vasos na sua maioria, mobiliário, vestuário e calçado, amuletos, brinquedos e jogos, papiros, armas…

Curiosamente, algum tempo depois abriu o renovado Museu de Antropologia da Faculdade de Ciências do Porto e, quando vi as peças egípcias(1), incluindo uma múmia com o respectivo sarcófago, já não foi uma sensação de novidade.

Hoje, burro velho,  tenho a consciência de que foi à custa de trabalho escravo que se fez muito do que ainda hoje podemos ver do Egipto antigo. O mesmo pode dizer-se dos gregos e romanos, e ainda de todos os  impérios dos últimos 500 anos, retirando algum brilho a muito do que foi alcançado pela Humanidade. Mas o fascínio de juventude continua.

NOTA

1- Os documentos da Universidade do Porto dizem que em Fevereiro de 1916 o governo português ordenou o apresamento dos navios alemães nos portos nacionais. Entre eles estava o Cheruskia, vindo do Iraque, e tinha a bordo material arqueológico recolhido em Assur, a antiga capital da Assíria. Terminada a guerra de 1914-1918, a Alemanha reclamou as peças, entretanto encaminhadas para a Universidade do Porto por decisão de Augusto Nobre, então ministro da Instrução Pública, e que era cientista e professor da Universidade. Após morosas conversões, foi decidida a troca do espólio assírio por um conjunto de 134 objectos egípcios adquiridos pelos museus berlinenses no final do século XIX. Em Janeiro de 1927 as peças chegaram por fim a Portugal. Contudo, andaram em bolandas até serem entregues ao Museu de Antropologia da Faculdade de Ciências, só em 1940. Ali permaneceram, durante décadas, até à constituição do Museu de História Natural em 1996, onde agora alguns desses objectos estão expostos.

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