No palco, duas bailarinas sexagenárias balançam-se malandramente, tentando acompanhar a música de jazz que a orquestra de quatro séniores ainda mais serôdios tocam nos seus instrumentos, também estes já muito gastos. A sala envelhecida, com veludos vermelhos, colunas forradas a espelhos e painéis pintados a fingir de mármore, mantém-se inalterada desde a primeira metade do século passado, aquando do apogeu do bar. Os veludos estão surrados, nas colunas faltam espelhos e os mármores esmurrados de onde em onde vão revelando o gesso estuque. Só as mesas e cadeiras traem o cenário, sendo obviamente mais recentes e de aspecto barato. Fico com a ideia que são os artistas de 1950 que ainda cumprem a sua função.
Quando visitei o bar “El Plata” de Saragoça, em 1985, há muito que era um local icónico onde os da terra gostavam de levar os visitantes para ver algo que não havia em mais lado nenhum. A visita foi interessante pelo anacronismo da situação, mas também pela algazarra e boa disposição, regadas com cerveja ao dobro do preço.
A uma dezena de quilómetros, visitei nessa altura um local que não podia ser o mais oposto ao Plata. Aí era o silêncio, os seus moradores não podiam falar nem era permitida a entrada a mulheres. Os monges da “Cartuja de Aula Dei” tinham feito voto de silêncio. Com excepção do senhor Abade, não contactavam com os visitantes. A principal actividade não religiosa da comunidade era a cultura de rosas em campos enormes. As pétalas, maceradas em caldeirões de acordo com segredo da Ordem, eram transformadas numa pasta moldável, usada para fazer objectos religiosos. As pequenas estátuas e os terços com perfume magnífico eram vendidos na loja da Cartuja e tinham bastante procura.
Quando voltei ao “Instituto Agronómico Mediterráneo de Zaragoza”, cinco anos depois, para mais uma acção de formação, disseram-me estar o Plata tão decadente que não valia a pena visitá-lo. Acabaria por fechar nos anos 90 e reabrir já neste século, renovado, com gente diferente e novos espectáculos, mas já não é a mesma coisa.
Quanto à comunidade de monges da Cartuja de Aula Dei, também não lá regressei. Soube mais tarde que, tal como o Plata, se extinguiu. Cedeu o espaço a uma colectividade religiosa renovada, dirigida aos jovens.