Um dia descobri a sua existência e não mais a larguei. Vinha ao bairro uma vez por semana, em dia certo, esperava os clientes assíduos, e apelava aos transeuntes tentando ampliar a clientela. Fazia-se transportar num enorme furgão branco de formato inconfundível e era conhecida por todos. Era a biblioteca Itinerante e fazia parte da minha rotina aos 11 anos de idade, frequentava eu o que se designava na altura por ciclo preparatório, os actuais 5º e 6º anos de escolaridade. Nunca percebi a razão de ser de tal designação, pois todos os ciclos são preparatórios para alguma coisa que se seguirá. Enfim, voltemos à biblioteca. No dia aprazado, eu esperava a chegada do furgão para devolver o material requisitado na semana anterior, um ou dois volumes conforme o número de páginas. Depois da devolução ao balcão virado para o exterior, entrava num mundo cheio de novidades, com aquele perfume a livro novo misturado com o cheiro a arrecadação. Seguia-se a selecção do que iria ler nos sete dias seguintes. A escolha era feita passando pelas altas prateleiras onde os livros seguiam uma organização temática. Depois passava-se pelo registo de saída. Havia um catálogo que os bibliotecários consultavam antes de efectivar cada empréstimo. Aí, a cada livro estava associada a faixa etária dos leitores a quem podia ser emprestado, não fossem mentes imaturas ler sobre assuntos impróprios… Por coincidência, ou talvez não, passaram-me pelas mãos alguns livros cuja leitura me surpreendeu. Não me lembro já de que tratavam, mas eram claramente das mesmas temáticas de outros que me foram vedados. Seriam livros mal catalogados? Tratava-se apenas de distracção do bibliotecário, despachando-me enquanto conversava com clientes mais interessantes? Teriam os censores lido todas as obras até ao fim? Talvez todos esses cenários tivessem ocorrido.
Não me recordo a que entidade pertencia mas a biblioteca itinerante foi importante nessa fase da vida. A consolidação dos hábitos de leitura e os conhecimentos adquiridos, bem como uma visão mais ampla de muito do que é deste mundo, deram-me frequentemente vantagem competitiva ao longo da vida. E deram-me também muito prazer. Por estas razões, desde cedo tentámos incutir nos descendentes a mesma filia pela leitura, com sucesso.
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