O sol ainda não tinha nascido já éramos muitos na serra, ao frio do inverno, e estava longe de imaginar todas as consequências do que estava para acontecer. Antes dos motoristas chegarem às máquinas de rasto, os activistas acorrentaram-se a elas de modo a impedir o seu funcionamento. A população da aldeia juntou-se em redor, apoiando com cantares e ajudando a segurar cartazes e uma lona pintada à mão com uma mensagem clara: Eucaliptos, não! Serra da Aboboreira Parque Natural. Tinha vários destinatários: a população do país, chamando a atenção para o problema, o governo, exigindo a demarcação de um parque e autarquias e habitantes locais, dando-lhes a conhecer a importância do património natural ao qual eles não davam o devido reconhecimento.
Nesse dia, a operação de limpeza e preparação do terreno para plantação de eucaliptos não avançou na serra. Implicava remover de uma área considerável os pequenos carvalhos em regeneração. Foi o 1º protesto a sério contra a plantação massiva de eucaliptos, principalmente em zonas sensíveis, e passou-se no início de 1989. Os habitantes tinham feito chegar a sua preocupação à delegação da Quercus no Porto, de cuja direcção eu fazia parte, e combinou-se com eles o modo de fazer um protesto visível. Os ambientalistas chamaram também os jornalistas. Por isto e pelo ineditismo, a acção teve grande impacto mediático, e ainda a reprovação do governo. Algum tempo depois foram mesmo plantados eucaliptos, mas não a grande área que tinha sido planeada, e sem obter rendimento assinalável ao longo dos anos.
Mais tarde, em março do mesmo ano, o processo teve continuidade em Valpaços e a coisa foi mais complicada. A população, quase mil almas, e dois autocarros de citadinos juntaram-se manhã bem cedo. Ainda sinto o sabor da fatia de pão com alheira que o presidente da junta ofereceu aos elementos da organização, em sua casa, retirando os enchidos de um suporte de ferro na lareira. Depois, um carreiro sem fim desaguou na quinta e todos juntos arrancámos milhares de pés de eucalipto que tinham sido recentemente plantados num terreno onde antes havia cereais e videiras. Apareceu a GNR a cavalo, tentando assustar as centenas de pessoas, mas estas iam fugindo e contornando os agentes da autoridade, uma história que não vou detalhar pois já foi contada muitas vezes, algumas delas omitindo o papel fundamental que alguns elementos da Quercus-Porto tiveram no planeamento, mobilização e desencadear da acção. Avisados por nós, os jornalistas compareceram e a RTP até requisitou um helicóptero militar para filmar o evento.
Apesar de todas as campanhas mediáticas levadas a cabo pelo movimento ambientalista contra os excessos do que era chamado “petróleo verde” o facto é que a expansão do eucalipto foi ajudada por todos os governos até se tornar na espécie florestal mais importante do país, em área ocupada. Muito do previsto nos anos 80 e 90 com a eucaliptização galopante sucedeu mesmo, quer em termos de ocupação indevida dos melhores solos e de áreas onde se deveria proteger o ecossistema, quer de erosão ou de fogos, quer ainda da afectação da economia local. De tal forma que uma parte da opinião pública se tem modificado nos últimos anos mas sem uma redução sensível na hipocrisia política e legislativa ou no ordenamento do território. Mas nem tudo é mau. No local de Valpaços onde hoje estaria um eucaliptal, que até podia ter ardido, a quinta do Ermeiro, grande propriedade agrícola da região, reconverteu a vinha e o olival, diversificou a produção e apostou no turismo, contribuindo muito para a economia da região e para a criação de emprego.
Em 2018, até o Presidente da República arrancou eucaliptos e plantou espécies autóctones… Tínhamos razão.

Arranque de pés de eucalipto na quinta do Ermeiro.

Paulo Santos