Foi memorável a batalha! Tínhamos conseguido atingir-nos uns aos outros com projécteis vermelhos e peganhentos, tudo numa grande algazarra de adolescentes, corria o ano de 1972. O pouco simpático professor de matemática tinha faltado e a malta correu para o pomar que ficava nas traseiras da escola, a extensão de Camacupa do Liceu Silva Cunha, cujas instalações principais eram a 80 quilómetros, em Silva Porto, actual Kuíto, Angola. Aconteceu algumas vezes irmos a esse pomar apanhar fruta e desandar antes que os cães chegassem e, nesse dia, a opção apareceu e a decisão foi rapidamente tomada, por maioria. Era o tempo da goiaba e estavam já muitas a cair de maduras. Começa um, continua outro, às tantas estavam todos a bombardear todos com a fruta mole. Os cães a ladrar foram o sinal para a retirada, mãos cheias de munições, e a batalha continuou até à escola. Esse foi o problema. A sala vazia era um abrigo lógico, o “santuário” onde alguns se refugiaram, mas não funcionou. Alguém com menos bom senso entrou e continuou a fazer pontaria aos restantes, no que foi abundantemente retribuído. No meio da enorme manifestação de infantilidade e deficiente avaliação das repercussões alguém gritou “vem aí o professor!” e todos se sentaram antes que ele entrasse. Sem estranhar o silêncio comprometedor, entrou carrancudo e olhando para o chão, como era seu hábito, pousou a pasta e o jornal “A Bola” e sentou-se na sua cadeira. Sentindo humidade, fez uma cara feia, levantou-se e constatou que se tinha sentado em cima de um projéctil já esmagado… Foi então que olhou com atenção e viu as paredes, as janelas, a secretária e o chão com as marcas vermelhas e amarelas de batalha, os nossos olhos baixados em confissão aflita. “Lindo serviço”, disse com voz mais grave que o habitual. Nesta altura já estarão a imaginar as consequências da nossa infeliz imprudência. Se não imaginam eu explico. Ficámos todos em fila, mãos estendidas com a palma para cima, e o professor, armado com a pesada régua de pau ferro, passou por cada um deixando-nos as mãos vermelhas, a fumegar… No final, até ele estava cansado.

Mais tarde, já em 1974, a turma do 5º ano à porta da extensão de Camacupa do Liceu Silva Cunha. 
Paulo Santos