UMA AULA ESPECIAL

Terminei a aula dizendo: Estes são os factos e agora terão de decidir se só querem fazer parte do problema ou também parte da solução. Não sou o autor desta frase, que tenho usado em vários contextos e com formulações ligeiramente diferentes, mas considero-a bastante mobilizadora. A aula correu muito bem e, posteriormente, fui sabendo por estudantes mais velhos que tinha deixado boa impressão.
A memória dessa aula é bastante difusa mas não a sensação de missão cumprida que senti na altura. Devo dizer, sem falsas modéstias, que assim me senti em grande parte das aulas, o que afinal não torna essa assim tão especial. A sua evocação é apenas um pretexto para deixar algumas reflexões sobre a actividade lectiva, a qual ocupou uma grande parte da minha vida profissional.
Mesmo tendo dedicado menos esforço à investigação, com as inerentes consequências de progressão na carreira académica, tenho um certo orgulho por me ter empenhado a fundo na preparação adequada das aulas, um julgamento talvez enviesado, mas não o é a demonstração permanente de respeito por todos os alunos, o incentivo aos interessados (e uma certa indiferença para com os restantes) a resposta às dúvidas, e o estar sempre presente para esclarecer, mesmo outras matérias que não as das minhas aulas.
Procurei evitar cometer os erros que ouvia nos corredores da faculdade atribuir a alguns colegas, para os quais dar as aulas era uma chatice, um empecilho à sua carreira científica. Os mesmos que consideravam a preparação das aulas uma grande perda de tempo, tal como ajudar os alunos, e para quem as actividades lectivas nunca tinham prioridade relativamente a congressos ou reuniões, faltando sistematicamente. E esquecendo muitas vezes de estar nas sessões de dúvidas ou nos exames. Eram precisamente os mesmos docentes que se atrasavam demais a corrigir relatórios e exames e que, para compensar tudo, faziam perguntas incrivelmente fáceis que em nada ajudavam a distinguir os cábulas dos estudantes esforçados e interessados, injustamente para estes últimos.
No tempo do papel, já lá vão largos anos, preparei extensas sebentas com material importante para o estudo, primeiro apenas com a iconografia não facilmente ao alcance dos alunos, e depois outras já com texto explicativo. Na “era digital” construí uma página na internet com informação complementar e resumos das aulas. Primeiro esteve disponível no servidor “www.terravista.pt” lançado pelo Ministério da Cultura e que permitia o alojamento gratuito de páginas (n. 1997, † 2004). Com o seu encerramento, transferi os conteúdos para o servidor da Faculdade de Ciências. Era tudo feito com programação html e expandi os conteúdos até ocupar todo o espaço de disco disponível. Mais tarde, com o aparecimento do moodle da Reitoria da Universidade, fui transferindo uma parte dos conteúdos das aulas para esta plataforma, bastante fácil de trabalhar, e que permite mesmo avaliação online, da qual me tornei fã e “apóstolo”. No servidor da faculdade ficou a informação geral para consulta: dissertações de mestrado e teses de doutoramento que orientei ou co-orientei, artigos científicos e publicações diversas de minha autoria ou co-autoria, e alguma informação pessoal. Ainda neste capítulo, desde 2007 que usei o youtube, aí colocando pequenos vídeos para dar motivação aos estudantes, sabendo da apetência deles por este instrumento de comunicação.
A minha ideia de estratégia de formação dos alunos não se baseou apenas nas metodologias que acabei de descrever. Ao longo dos anos organizei muitas saídas de campo, dentro ou fora dos tempos lectivos, formalmente ou informalmente, aos fins de semana, em locais próximos e bem servidos de transportes públicos. Às vezes era para mais longe, como por exemplo a Sagres, para ver a migração outonal das aves, fenómeno espectacular que a maioria deles desconhecia. De forma complementar, ainda divulguei aos alunos informação sobre conferências e palestras acessíveis e com temas relevantes para a sua formação.
Sempre me soube bem ao chegar ao fim de uma aula e sentir que tinha aumentado o conhecimentos dos alunos, que lhes tinha suscitado reflexão com questões pertinentes e motivação para aprofundarem melhor os temas abordados. É claro que esta tarefa não é fácil e não foram poucas as vezes que fiquei insatisfeito, frustrado mesmo, com a falta de reacção e com o desinteresse, mas penso que só uma pequena fracção será de minha responsabilidade. No final, o que fica é o sentimento de dever cumprido.

 auladecampoecologia1991

Aula com alunos de 3º ano de Biologia em Crestuma. CC0cc1Paulo Santos 

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