Eu tinha meio século de existência e, mal subi para o autocarro e avancei pelo corredor, ouvi: Faça o favor de se sentar. Assim me disse uma jovem que não aparentava ter mais de 15 anos. Surpreendido, aceitei e agradeci com um sorriso, talvez amarelo, mas sincero, apesar de não ter necessidade real de me sentar. É certo que eu exibia já uma boa careca em coroa, mas era visível apenas aos mais altos, e não tinha cabelos brancos. Talvez aparentasse algum cansaço, ou apresentasse olheiras de mal dormido, não sei. Numa época em que é raro ver os jovens cederem o lugar no transporte público aos cidadãos da terceira idade, a atitude tocou-me. Sim, os jovens não são todos iguais. Mas tocou-me ainda por outra razão. Não da mesma forma que já me tinha feito matutar no assunto, depois de olhar para o lado nas filas de trânsito e constatar que, na sua maioria, os condutores pareciam ter menos de 40 anos, o mesmo nas filas para as caixas do supermercado, ou ainda no cinema, ao ver as jovens actrizes do nosso tempo já a fazerem papéis de viúvas, ou de avós. Apesar de já ter relatado várias vezes entre amigos o episódio do autocarro, de forma galhofeira, o impacto que a cena me provocou foi mais profundo e foi-se entranhando devagar, como a poeira vai assentando depois da ventania. Quando nos dão o lugar no autocarro pela primeira vez, passamos uma fronteira. E só há uma maneira boa de encarar a situação, que é assumir e seguir em frente. A verdade é que a idade nunca me tinha pesado em nenhuma circunstância. Nem nas actividades do dia-a-dia, nem nas caminhadas de montanha ou noutras actividades radicais, nem a rachar lenha, nem sequer nas relações sociais, e o episódio não alterou essa percepção. Mas fez-me reflectir melhor sobre o envelhecimento nas suas variadas dimensões e sobre o quão enganadoras podem ser as percepções que temos de nós próprios.