Ela aproximou-se em passo decidido como se não nos visse. A cerca de cinco metros parou, olhou em volta e agachou-se. Um cheiro nauseabundo espalhou-se no ar enquanto a malhada se via livre dos resíduos da refeição anterior. E deixou-me uma dúvida, pois não tenho a certeza se o perfume era mesmo da hiena ou do seu presente.
A cena passou-se durante um safari fotográfico no Parque Nacional de Amboseli, na fronteira do Quénia com a Tanzânia, uma das viagens mais extraordinárias da nossa vida. Sim, foram dias e noites sem igual, pois visitámos para além de Amboseli, o Parque Nacional e Floresta Natural do Monte Quénia, a Reserva Nacional Maasai Mara, o Parque Nacional do Lago Nakuru, o Parque Nacional do Lago Naivasha, a Reserva de vida selvagem Sweetwaters e a Reserva de vida selvagem Ol Pejeta, e tivemos ainda um vislumbre do Parque Nacional de Nairóbi.


Paulo SantosPara além da cena inusitada da hiena inconveniente, tivemos também oportunidade de estar imersos na savana africana, rodeados de toda a fauna icónica como se estivessemos num documentário do David Attenborough na BBC. Para um biólogo, ademais de Angola, o significado foi de magnitude superlativa, como poderá suspeitar-se, um sonho que tornámos real.
Inesquecível a família de elefantes com o monte Kilimanjaro em fundo, cume branco de neve. Sim, fica do outro lado da fronteira, mas é tão alto que se vê a grande distância. Mas foi também marcante ver as grandes manadas de herbívoros a pastar, o leopardo a descansar em cima de uma árvore, a águia-pesqueira africana a apanhar peixe à nossa frente, os leões a comer um búfalo com os abutres em volta à espera de vez, o hipopótamo na água com um jacana na cabeça, o rinoceronte ferido e os pica-bois a comer o sangue que escorria, o olhar consciente dos babuínos, as girafas a beber, os flamingos e pelicanos em nuvens cor-de-rosa, as crias das chitas a brincar com a cauda dos adultos, os leões bebés a passarem muito perto, guardados pelas mães, a parar e beber de uma poça de água da chuva… E tantos outros em paisagens magníficas, o que sobra dos ecossistemas africanos tão fortemente destruídos nos últimos séculos.
O Quénia é um paradigma dos problemas da conservação da vida selvagem. Apesar de muitos parques que contribuem de forma tão significativa para a economia do país, persistem ameaças como a caça ilegal e o tráfico de animais, problemas extensivos a todos os países da região. A este propósito, não posso deixar de mencionar um caso que correu mundo, não há muito tempo.
Os rinocerontes-brancos do norte (Ceratotherium simum cottoni) viviam anteriormente em vários países da África Oriental e Central ao sul do Sara, mas foram quase destruídos pela caça na era colonial e, mais recentemente, pela caça furtiva. Os “chifres”, do mesmo material que as nossas unhas, são vendidos a pessoas ignorantes um pouco em todo o


Paulo Santosmundo mas, sobretudo, para medicina tradicional oriental, mercado que é uma forte ameaça a todas as espécies de rinocerontes pelas elevadíssimas verbas envolvidas. O último macho de rinoceronte-branco do norte, chamado Sudan, vivia em cativeiro no Quénia e em 2012, quando o visitámos na reserva de Ol Pejeta, já ele estava cego e sem os seus “chifres”, serrados para não atrair caçadores. Mesmo assim, estava guardado por meia dúzia de homens armados de metralhadoras. Em 2018, depois de uma prolongada doença degenerativa, foi finalmente morto e preservado. Há projectos para fazer a sua clonagem, ou aproveitar o seu material genético para fecundar as poucas fêmeas ainda vivas, mas o processo não será simples. Para os pessimistas, todos os cuidados foram insuficientes para salvar a espécie. Para os optimistas, há a possibilidade de a recuperar num futuro mais ou menos próximo…

Maasai Mara 
Paulo Santos
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