Não era a pior comida do mundo, e nunca me incomodou muito tê-la frequentemente. Mas é melhor explicar. Nos primeiros anos da década de 70 do século passado, vivíamos nós no Lobito, em Angola, muitas refeições eram bastante desinteressantes, o mínimo que se poderia dizer. Na verdade, era frequente termos vários dias consecutivos em que, depois da sopa, o prato principal era arroz. Melhor dizendo, era trinca de arroz com sardinha em conserva.
Para quem desconhece o produto, a trinca é o arroz fragmentado que sobra do processo mecânico de descasque. Sim, os grãos não nascem na planta soltos e branquinhos como aparecem nos pacotes à venda no supermercado. Têm que ser libertados dos seus invólucros de celulose e depois branqueados. Para este processo usam-se máquinas abrasivas e cobrem-se os grãos, muitas vezes, com talco ou parafina. Durante as operações quebram-se alguns, sendo depois usados crivos para os separar dos inteiros.
A trinca, tendo pior aspecto, é vendida a preço mais baixo. Se hoje é vendida para alimentação dos cães nos países mais ricos, em muitas zonas do mundo continua a ser usada na alimentação humana.
Voltando ao arroz de sardinha de conserva, eu até gostava, e não passava fome. Ainda hoje gosto. Contudo, havia outro preparado culinário que, apesar de não me incomodar, causava aflição a alguns membros da família. Era a sopa de arroz bichado. Este “manjar” merece uma explicação mais detalhada, e é em tudo semelhante ao que ouvi contar sobre a broa no tempo da segunda guerra.
Quando o arroz é atacado por insectos que nele colocam os seus ovos, mais tarde ou mais cedo deles nascem minúsculas lagartas que vão roendo os grãos. Chegada a altura certa, libertam-se e transformam-se em novos adultos, recomeçando o ciclo. Se o arroz for cozinhado com as lagartas no seu interior, elas soltam-se e acumulam-se à superfície. Na sopa, formavam uma curiosa camada de centenas de pequenas “vírgulas” brancas. Um complemento proteico para uns, um nojento sacrifício para outros, era a “sopa com carne” da época. Ou então, dito de outra forma, era a sopa com “carne da época”. Diz-se muitas vezes que as vírgulas mudam o significado das frases mas, afinal, as aspas também.
Convém acrescentar que essa estratégia alimentar tinha como objectivo, soube-o mais tarde, poupar fundos para o que depois foi, durante alguns anos, uma vida melhor.
Faltou a explicação do que ouvi dizer da broa. Também ela era feita com farinha recheada de insectos e, quando saía do forno, ainda a fumegar, viam-se os bicharocos sobreviventes a sair do seu interior. E não era por isso que não era comida pois, durante a segunda guerra mundial, a fome era certamente muita. Este final de memória não é meu, mas não podia deixar de o escrever, não só para comparação, mas porque ouvi contar a história muitas vezes ao decano da família mais próximo.
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