PALESTRA NO MUSEU

No final bateram palmas, mas fiquei com a sensação desagradável de não ter correspondido ao que a audiência estava à espera. Talvez tivesse enxertado biologia a mais e história a menos, mas então qual a razão de terem contactado um biólogo?

A sala estava cheia de gente especial. Não conhecia ninguém, mas não admira pois pertenciam a círculos diferentes do meu, eu das ciências e eles das letras. Tinha recebido um pedido (através do professor Alexandre Quintanilha) para fazer uma palestra sobre o rei Dom Carlos e a sua relação com o mar. Aceitei colaborar no ciclo de conferências que decorreu no Museu Soares dos Reis, em 2007, no âmbito das comemorações do centenário da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Sendo hoje reconhecido como o “pai” da oceanografia portuguesa, preparei e apresentei o tema ”AS CIÊNCIAS DO MAR NO PORTUGAL DE D. CARLOS”, profusamente ilustrado. Abordei não só a contribuição grande do rei para o progresso do estudo do mar, mas lembrei também alguns cientistas portugueses da época. E falei ainda de erros científicos  que foram corrigidos e mistérios que foram esclarecidos no fim do século 19 e início do século 20. O desmontar da teoria azóica e um maior conhecimento sobre as formas de vida do fundo dos oceanos, precisamente dois temas em que o rei Dom Carlos e vários cientistas portugueses, como Barbosa du Bocage, desempenharam um papel importante na época.

Durante muito tempo,  a comunidade científica acreditava que não havia vida para baixo dos 500m de profundidade, devido à escuridão e à pressão muito grande, a tal teoria azóica, defendida por Edward Forbes e outros. As primeiras provas em contrário foram mesmo consideradas falsas ou erros de amostragem. O episódio da descoberta de Hyalonema lusitanica (publicado em 1864), a esponja comprovadamente amostrada por Barbosa du Bocage  a mais de 1000 metros de profundidade em Portugal, deu muita discussão mas acabou com o cepticismo inglês. Deu também credibilidade à ciência nacional e contribuiu para impulsionar a oceanografia. Depois disso, passaram pelas nossas águas vários navios de investigação dos fundos marinhos.

Seguindo a tendência dos monarcas europeus da época, D. Carlos patrocinou uma dúzia de campanhas oceanográficas, efectuadas com três iates sucessivos que o rei baptizou de Amélia, entre 1896 e 1907. Os trabalhos tiveram a orientação científica de Alberto Girard, que  organizou a colecção resultante das investigações (era conservador do Museu de História Natural de Escola Politécnica) e uma parte delas ainda pode ser vista no aquário Vasco da Gama, em Algés. Este, não sendo hoje tão atractivo como o oceanário de Lisboa, merece uma visita. Depois das campanhas, D. Carlos fez publicar várias obras de reconhecido mérito científico, como por exemplo os  ”Resultados das investigações scientificas feitas a bordo do yacht amelia, Ichthiologia. II esqualos obtidos nas costas de Portugal durante as campanhas de 1896 a 1903.”

Voltando agora ao início da memória e ao final da minha intervenção, quando senti distanciamento da audiência. Ou teria sido apenas  impressão minha, uma má avaliação de uma plateia de artistas e intelectuais, habituado que estava a audiências empenhadas e entusiasmados? Nunca saberei.

O certo é que, durante mais de 30 anos, nunca tive outra igual, e foram muitas as palestras que fiz. Fui convidado muitas vezes para falar sobre ambiente em geral, mas também sobre temas mais focados na conservação da natureza ou na biologia marinha. A maior parte das sessões decorreu em escolas, mas também fui a associações cívicas, organizações   ambientalistas, clubes de Rotários, câmaras municipais, Serralves, centros “Ciência Viva”, etc. Os convites apareciam de antigos alunos, de antigos colegas de faculdade, agora professores, ou eram pedidos institucionais dirigidos à faculdade, ou ao Fapas. Quando o tema solicitado não era do meu domínio, procurei sempre indicar uma alternativa, um colega do laboratório ou da associação.

Da maior parte dessas sessões não guardei registo escrito, mas tenho no sótão um conjunto de pequenas ofertas, medalhas, símbolos, bugigangas diversas e até um cinzeiro. Só não guardei nada quando me deram flores.

Só há meia dúzia de anos deixei de aceitar convites, obrigado a tal pelas dificuldades físicas crescentes. Mas sinto que cumpri uma missão relevante, contribuindo para o aumento da literacia ambiental, bem como tentando motivar as audiências para uma militância cidadã mais empenhada e esclarecida.

 

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