Olhava para nós sem medo, talvez por se encontrar em posição mais elevada, protegida. Parecia estar isolado, não se via a família. Lentamente encurtámos a distância e, muito próximos, fizemos algumas fotografias, mesmo a tempo, antes dos três saltos rápidos por entre as pedras com que desapareceu silenciosamente. Foi já a meio do regresso ao início do trilho, uma longa caminhada no desfiladeiro do Añisclo, nos Pirinéus espanhóis, que fomos brindados com a excelente observação do rebeco.
A Camurça-dos-pirenéus ou rebeco, Rupicapra pyrenaica como é rotulada em taxonomia, e que significa “cabra das rochas”, vindo de rupes, termo em latim para rocha. E pyrenaica por ser da zona dos Pirenéus, claro, mas contando com algumas populações nas Montanhas Cantábricas.
Mamífero que habita zonas de altitude, pode atingir 80 centímetros de altura e 45 quilos. Foi caçado quase até à extinção no século 20, por “desporto” (não compreendo o uso deste termo no contexto da caça) e também para aproveitamento da sua pele macia no fabrico dos “panos” conhecidos precisamente por camurça. Estes eram muito populares para lavar os carros, o que antigamente se fazia muito frequentemente, sendo uma actividade típica aos fins de semana.
Mas voltemos aos Pirenéus, já no século 21. Levantar muito cedo, fazer alguns quilómetros de estrada até ao local, estacionar e equipar. Depois, descemos desde o parque de estacionamento até ao início do caminho que sai do eremitério de San Urbez, na margem do rio. Suave na parte inicial, o trilho segue pela margem esquerda mas depois, já pela face direita deste profundo vale encaixado, torna-se mais declivoso e serpenteia pela encosta. À medida que avançamos, vamos passando as cascatas por onde o rio Bellós vai também ele descendo a montanha. Mais acima, em miradouros no topo de altas escarpas verticais, observamos as enormes paredes em frente e também o fundo do vale coberto com vegetação cerrada. Faias jovens em todo o percurso e algumas bem antigas, de longe a longe. Vemos também o que é habitual numa zona de montanha, flores, cogumelos, carochas, borboletas, passarinhos, rãs, pegadas…
Foram várias horas de caminho, sempre a subir, até conseguirmos observar de mais perto a Fon Blanca, grande jorro de água que irrompe a meio da encosta em frente, numa confluência de vales mais abertos, com verdes prados de altitude e os brilhantes picos mais altos destacando-se contra o céu, um cenário grandioso, maravilhoso.
Mas esta experiência não se usufrui sem algum sacrifício. Foi necessário carregar o farnel para um dia, água, impermeável, binóculos, GPS, e ainda pequenos acessórios como o canivete suíço. Devo também acrescentar, teimosia minha, mais de 10 kg de material para fazer boas fotografias em lugar tão especial: duas câmaras, grande angular para paisagens, um zoom médio para todo serviço e, especialmente para as aves, a pesada teleobjectiva de 500 mm, mais o respectivo tripé.
A descida foi mais rápida que a subida, não só porque “todos os santos ajudam”, mas porque o solo estava mais seco. Também não prestámos tanta atenção à paisagem, às plantas e aos animais como tínhamos feito de manhã.
Chegados ao final do trilho, tivemos ainda de subir pela estrada mais dois ou três quilómetros até ao parque de estacionamento, num esforço de pernas amanteigadas. Quando entrámos nos carros era já noite fechada. Dia longo, tínhamos apanhado alguma chuva de manhã, tinha avariado uma das câmaras e não tinham aparecido muitas oportunidades para usar a teleobjectiva. Muito cansado no final dos 24 km, ombros bastante queixosos, arrependi-me de ter levado tanto peso, mesmo tendo sido ajudado a carregá-lo pelo Z, um dos companheiros de aventura.
Desse dia, a única foto que merece destaque é do rebeco. Apanhei-o a sacudir-se, e pareceu-me bem no visor, mas nada de especial. Foi só em casa, ao ver a imagem em ponto grande, que me apercebi de que era uma boa foto. De perto, bem focada, boa exposição, cores suaves, e o “modelo” de armação assimétrica numa pose pacífica. Mas o melhor é que a fotografia tinha captado o momento certo. Uma fracção de tempo depois de se sacudir, o rebeco estava envolvido por uma nuvem de pêlos brilhantes, arrastados pela brisa suave. Afinal, carregar com o material tinha valido a pena.

A Camurça-dos-pirenéus ou rebeco, Rupicapra pyrenaica.

Paulo Santos