Esperar, avistar, apontar, enquadrar, focar, disparar e já está. Estes são os passos necessários para fazer uma fotografia de uma ave. E ficar calado! Mesmo assim, muitas vezes não resulta.
Desde miúdo que gostava bastante de ver e ouvir estes animais alados, fofos e coloridos. Nos jardins, em passeio, a pé ou de bicicleta, nos acampamentos de família ou quando ia à pesca, era frequente avistar uma mão cheia delas, tal era a sua diversidade em Angola. Lembro-me de anduvas, rolas, periquitos, viúvas e viuvinhas, bicos-de-lacre, andorinhas, tecelões, degolados, beija-flor… E também das de maior corpulência, como javas, capotas, patos, perdizes, flamingos, abutres, garças e avestruzes, entre outras cujos nomes agora não me ocorrem.
Presenciei cenas fabulosas, como aquele bando de centenas de ruidosos periquitos verdes, volteando uns, os outros a tomar banho no rio. De outra vez, vi um bando de rolas tão grande que tapou o sol, ficando tudo na penumbra durante vários minutos. Outras, não sendo fabulosas, não deixaram de ser marcantes, como os bandos de centenas de flamingos rosados a voar, ou o corpo seco de um pequeno pássaro numa grande teia, cuja dona não se mostrou mas que, certamente, não seria muito menor que a vítima.
Ouvi contar curiosas crendices relacionadas com aves, como aquela de uma rapina, não me lembro qual, mas que levava as mulheres grávidas a refugiar-se na sombra quando ela passava. Diziam que se fossem apanhados pela sua sombra, e se ao mesmo tempo piasse, provocaria malformação no bebé.
Muita gente tinha gaiolas com aves, africanas na sua maioria, mas também canários europeus. Era um hábito comum quando as populações humanas iam viver para uma terra distante, muitas vezes noutro continente, e levavam consigo animais do seu país, um nostálgico modo de o levar também. Sabe-se hoje que este costume originou graves problemas em todo o mundo, causados por alguns desses animais, os que fugiram ou foram libertados da gaiolas. Quando se adaptaram ao novo ambiente provocaram prejuízos económicos e danos nos ecossistemas, muitas vezes irreversíveis.
Mas voltemos às aves. Eu gostava de as ver cá fora, voando e cantando à solta. Contudo, lembro-me de ir para o liceu, cavalgando a bicicleta, com um pombo-verde ao ombro. Os professores, tolerantes, só pediam que o bicho ficasse sossegado no fundo da sala. De início levava-o preso com um cordel, mas depois habituou-se e ia sem amarras, e não fugia.
A vinda para a Europa cortou o estilo de vida em contacto próximo com a fauna, e as aves ficaram naquela categoria das coisas difíceis de ver fora de revistas e das reportagens na televisão, um gostar à distância. Foi preciso um acontecimento anormal para eu redespertar o interêsse para com os bichos penudos. E foi a aventura que teve lugar no Parque Nacional da Peneda-Gerês, e que já foi abordada noutra memória (Vultos na Floresta) que me levou novamente para o contacto próximo com as aves selvagens. Com equipamento emprestado por um amigo de um amigo (quanta confiança!) fiz as primeiras imagens de aves selvagens a seguir à única que tinha feito até então: uma avestruz no deserto de Moçâmedes. Estava longe e tinha usado uma máquina muito simples, mas vê-se bem o que é, e tem o encanto de ser a primeira.


Paulo SantosPara acompanhar este regresso à avifauna, organizámos uma viagem de estudo a Doñana, em 1981, a primeira de várias. Neste parque nacional espanhol tivemos a oportunidade de ver tantas aves que não conhecia, e vistas de tão perto que me deram vontade de fazer um registo mais completo. Foi então que me decidi a comprar equipamento fotográfico adequado para começar um hobby de várias décadas, a fotografia de aves no seu ambiente.
Nesse mesmo ano, com o que ganhei nas vindimas em França, fui a Londres comprar uma teleobjectiva. Como não havia verba para as melhores, contentei-me com uma Sigma 600 mm de espelhos. Difícil de operar, mesmo assim foi com ela que obtive imagens que ainda hoje me deliciam.
No ano seguinte, em setembro, decorreu em Paimpont, uma acção de formação sobre vertebrados, com uma forte componente dedicada à observação e identificação de aves. Não perdemos a oportunidade de ir aprender, fizemos a candidatura à universidade de Rennes e lá fomos. O curso foi uma aventura, mais uma. Para além do muito que aprendi sobre aves, e também um pouco sobre aquela região na Bretanha francesa, foi também o tempo de começar a programar a vida de adultos.
Ao longo dos anos fui fazendo fotografia de aves um pouco por todo o lado. Fui também adquirindo mais e melhor equipamento, para melhores fotografias. Esta actividade forneceu-me material para ilustrar as aulas e manuais escolares, mas também as dei para uso público, estando uma boa selecção disponível na internet. Páginas na internet, exposições didáticas, cartazes, folhetos de organizações não-governamentais de ambiente, principalmente o Fapas, muitos têm beneficiado destas fotografias. Porém, a aventura de obter cada uma delas, umas mais difíceis outras mais comuns, foi uma fonte de muito prazer. Vê-las a passar no ecrã do computador, faz-me recordar o local, as circunstâncias e o momento em que fiz uma grande parte dessas imagens.

Andorinha-dáurica (Cecropis daurica) 
Paulo Santos
Muitas das minhas imagens estão disponíveis no álbum “ANIMAIS“, de acesso livre. Outras estão disponíveis no “Banco de imagens da Casa das Ciências”. Depois de aceder ao site, podem fazer uma pesquisa com a palavra “Talhadas”. Das mais de cinco centenas de fotografias que aparecem no resultado, quase todas foram feitas por mim…