Passava horas a ler, e apreciava muito um ou outro dos volumes profusamente ilustrados que os meus pais tinham comprado para nós. Chamava-se ”A minha primeira Enciclopédia” e mostrou-me o mundo, a par de outra colecção chamada “Como funciona?”, e ainda outra, o “Atlas do universo”. Não me lembro bem mas terá sido por volta dos 10 anos de idade, vivíamos nós no continente africano, longe de quase tudo o que influenciava a sociedade ocidental. Mas aprendi muito sobre outros povos, outras geografias, tecnologia, ciência e cultura, o que me foi útil em múltiplas ocasiões.

Claro que ao viver em Angola e pertencendo a uma família de curiosos, tive oportunidade de conhecer uma parte do mundo muito diferente das potências coloniais,militares e económicas que a enciclopédia descrevia com mais detalhes. Vi grandes plantações de café, milho, cana-de-açúcar e outros produtos agrícolas que, mais tarde ou mais cedo, acabariam numa mesa na Europa. Vi grandes comboios de transporte de minério de ferro ou cobre, com o mesmo destino. Vi uma grande diversidade de fauna, flora, e paisagens inesquecíveis. Também vi algumas pedras preciosas que acabariam num dedo ou numa orelha europeia. E tinha contactado aspectos culturais de várias etnias africanas, o que a maioria dos europeus nunca teria visto.
Era uma vida feliz, mas era também uma visão muito parcelar do mundo. Numa época em que não tínhamos televisão e as grandes viagens eram muito limitadas para a grande maioria da população, a miragem dos países mais desenvolvidos povoava o imaginário juvenil. É muito curioso lembrar-me o muito que eram apreciados os poucos minutos das reportagens sobre o mundo que antecediam a projecção dos filmes nos cinemas, mesmo antes dos desenhos animados.
Foi já como adolescente ou subadulto que vi as primeiras ruínas romanas ou os palácios feitos pelos árabes no século 14 na Península Ibérica e alguns elementos do património português, construído ou de costumes: os castelos, tão glorificados pela educação na infância, ou importantes instalações tecnológicas como a refinaria de Leça, ou ainda cenas tão simples como campos de centeio a serem ceifados, visíveis das janelas do primeiro piso do Liceu António Nobre.
Só em adulto vim a conhecer muitas das coisas que me tinham fascinado ou arrepiado na enciclopédia, como por exemplo as casas antigas de estilo holandês, a torre Eiffel, brinquedos nórdicos, os canais de Veneza, os alinhamentos megalíticos de Carnac, o Partenon, o Coliseu, o de Roma, claro, as grandes catedrais e tantas outras que tive a sorte ou o engenho de ver ao longo da vida. E máquinas impressionantes com o microscópio electrónico, grandes instalações industriais ou até centrais nucleares. Mas também os grandes museus com as suas colecções de pintura e quadros famosos, como a Mona Lisa, e as colecções arqueológicas e artefactos icónicos, como as múmias e seus sarcófagos, os calendários de pedra dos astecas ou os barcos vikings. E ainda grandes fenómenos da natureza como vulcões, as mais importantes cataratas, o maior deserto, os Himalaias, Yellowstone, o Grand Canyon, a grande barreira de coral, a Amazónia, a Antártida…
O que não vinha na Enciclopédia, mas tive também oportunidade de conhecer, foram alguns aspectos mais negativos das sociedades humanas, um pouco por todo o mundo. Passei em terras de profunda pobreza, num antigo campo de concentração, passei em zonas separadas por fronteiras fortemente militarizadas, em locais incrivelmente poluídos…
Todas aquelas experiências, que começaram por ser virtuais e só depois se foram tornando realidade, contribuíram para ser o que tenho sido toda a vida, e começaram nos meus pais, nos livros que eles me deram, e na formação que me proporcionaram.