O terno vai batendo nos tornozelos a cada passo, o sofrimento é maior à medida que a distância percorrida aumenta e as forças me vão faltando.
O tal terno não era uma carta de jogar nem peça de dominó, não era um fato com 3 peças de vestuário, nem sequer um conjunto de sofás… Era o termo usado pelos meus pais para designar um utensílio de transportar alimentos que se comprou para a ocasião. Três recipientes que encaixavam uns por cima dos outros e ficavam seguros por uma tira que os amparava de lado, tapados por um prato, tudo em alumínio. Só a pega era de madeira. No recipiente de baixo, o mais alto, colocava-se a sopa, no do meio o arroz, a massa ou as batatas e hortaliças, e no de cima a proteína, peixe ou carne. Hoje chama-se marmita.
A ocasião que mencionei foi ter a minha mãe imobilizada, na sequência de uma operação as varizes, que eram uma novidade na época e não se faziam no hospital da terra. A intervenção não deve ter terminado da melhor maneira, mesmo tendo sido efectuada por um reputado cirurgião estrangeiro de uma missão católica situada não me lembro onde. Durante um período de tempo que hoje não consigo determinar, a minha mãe teve de ficar acamada com tratamentos dolorosos e o pai não conseguiu condições no trabalho para acompanhar melhor a situação em casa.
Era necessário ir buscar o almoço todos os dias. Assim, depois das aulas, que na altura eram só da parte da manhã, eu ia a um hotel onde, já manhã cedo, o pai tinha entregue o vasilhame. Ficava não longe da escola primária e lá chegado, só tinha que dizer o nome e entregavam-me o tal terno, já recheado, tudo bem quentinho saído da panela no momento. Depois, caminhava cerca de 1 km a pé até casa. Não parece muito, mas ainda não tinha 10 anos. Terá sido em 1968 ou em 1969?
Na altura não me pareceu excessiva a minha tarefa, e sentia-me mesmo um elemento útil, indispensável ao funcionamento da família. Hoje, vendo as coisas de outra perspectiva, faço uma análise diferente e nunca sujeitaria um filho daquela idade a uma situação semelhante. Mas as lupas de análise não são comparáveis às que existiam na época.
Retomando a parte dolorosa da memória, nos primeiros metros não havia problema. Depois os braços iam enfraquecendo e começava a tortura. Mesmo trocando de mão, o terno ia batendo nos tornozelos a cada passo, entornava um bocadinho de cada vez, e a sopa quentíssima ensopava as peúgas…
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