Pouco depois de entrar no país pela fronteira de Vilar Formoso, era hora de almoço. Restaurante de beira de estrada, escolher mesa, mandar vir prato do dia, costeletas de porco. E para beber? Venha uma garrafa de Porto!
Vinha de França à boleia num camião TIR. Terminadas as vindimas de 1981 na zona de Bordéus, fui comprar material fotográfico a Londres, com uma breve passagem por Paris. Na altura, esse tipo de instrumentação era sobrecarregado com impostos no nosso país, o que aumentava muito o preço final. A diferença dava para uma visita cultural a essas duas grandes capitais europeias, se fosse escolhido alojamento barato e se poupasse ao máximo nas viagens. Foi assim que fiz o plano e foi assim que o executei. Esses dias entre pessoas diferentes, monumentos, museus, espectáculos de rua e enormes livrarias, ficaram para sempre. As maravilhas egípcias do Louvre, as máquinas de medir o tempo, no já fechado Museu do Homem em Londres, os artistas no antigo Forum des Halles, os Museus de História Natural, as casas e as ruas e lojas… Mas esta memória é sobre outro aspecto da cultura. Passo a explicar.
A boleia tinha sítio obtida através de um amigo do proprietário da quinta vinícola onde ganhara os preciosos francos, e tinha ficado apalavrada duas semanas antes. No dia marcado lá me apresentei no local combinado e fiz uma viagem muito confortável. Era uma caravana de três camiões que vinham a Portugal carregar rolhas de cortiça para garrafas de vinho francês. Foram os três motoristas que responderam ao empregado de mesa, como se fosse a coisa mais natural do mundo, a cena que repito: Venha uma garrafa de Porto!
Para eles, vinho era vinho, fosse doce ou não, muito ou pouco alcoólico. Tentei explicar os diferentes tipos de vinho do porto e o respectivo modo de usar, mas a decisão estava a tomada, queriam o exótico. E gostaram.
Regados a vinho do porto, as costeletas e os motoristas, era hora de uma sesta. Dormiram profundamente durante um par de horas antes de retomar viagem na antiga Estrada Nacional.
Estávamos perto de Mangualde quando ocorreu um acidente com um dos camiões. Num cruzamento em curva, o atrelado de um deles, precisamente aquele em que eu viajava, raspou na frente de uma viatura que estava no cruzamento, muito chegada à frente para entrar na estrada principal. Não dei por ela e penso que o motorista também não terá reparado. O facto é que o prejudicado entrou na via, começou a buzinar, ultrapassou-nos perigosamente e travou na nossa frente, atravessado na estrada. A cena que se seguiu, trânsito interrompido, acumulação de mirones, invectivação abundante e quase vias de facto, só acalmou com a chegada da GNR.
Todos para a esquadra. Fomos identificados, interrogados e, como ninguém da autoridade sabia falar francês, acabei a traduzir as declarações do motorista do TIR. Mas a minha intervenção foi mais longe. O GNR mal sabia escrever e não sabia tirar as informações necessárias dos documentos de seguro e identificação. Fui eu que o ajudei a preencher as fichas de ocorrência, senão ainda hoje lá estaríamos. Nunca soube o resultado do processo.
Para lá do importante contacto com a cultura das capitais europeias e com a cultura por vezes desconcertante de gentes diferentes, era também sobre outra cultura que eu queria escrever, a do Portugal do antigamente e que, felizmente, evoluiu para muito melhor durante a minha geração.
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